Opinião

Opinião: Você troca um jogo por dez respiradores?

por Erich Beting
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Rogério Caboclo, presidente da CBF
Divulgação/CBF
Rogério Caboclo, presidente da CBF
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“Você troca dois jogos de futebol por dez respiradores para aparelhar seus leitos de UTI colapsados?”

SIIIIIMMMMMMMM!

Parece aquela proposta absurda de programas de auditório, mas essa é parte da realidade por trás da disputa de dois jogos de futebol do Campeonato Paulista na cidade de Volta Redonda, no interior do Rio de Janeiro.

A revelação de que a “ajuda” da cidade fluminense para receber jogos do Paulistão na verdade foi uma contrapartida para receber aparelhos para auxiliar no combate à pandemia sintetiza bem o show de horrores, a falta de liderança e a total incapacidade dos gestores do futebol brasileiro.

Os dirigentes tupiniquins, sufocados pela crise financeira, não souberam usar a pandemia para fazer reformas absolutamente necessárias para melhorar o futebol dentro de campo e, principalmente, fora dele. É impressionante como, há um ano, a CBF não trabalha para resolver os problemas do esporte em nosso país, tentando ao máximo forçar a volta do futebol o mais rapidamente possível. E, pior, ao que ele era antes. Nem que seja, literalmente, no grito, como mostrou o presidente Rogério Caboclo na reunião que teve com presidentes de clubes no dia 10 de março.

“Se o futebol parar vocês estão f...”.

Essa é outra frase para ser emoldurada na parede do que são, como pensam e como não agem as cartolas furadas do futebol nacional.

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No mundo todo o esporte parou e usou a pandemia para se ajustar, para tornar mais racional a divisão de receitas entre clubes, para entender os rumos que vinham sendo tomados e os novos caminhos que precisam ser seguidos. Reduziram calendários, mudaram divisões, readequaram conceitos.

Da NFL à recém-criada quarta divisão de futebol em Portugal, não houve país que não aproveitasse a pausa para, de forma sofrida, olhar a perspectiva futura.

Quer dizer. Houve um país em que nada mudou. Pelo contrário. Só piorou. Atropelamos 2021 tão logo conseguimos fazer caber 2020 dentro de um calendário que parece ser imutável. Em todos os países, passados os dois primeiros meses de susto com a pandemia, a primeira medida tomada pelos gestores foi racionalizar o calendário de jogos. Infelizmente, aqui no Brasil, é preciso lembrar o porquê disso.

Quem faz o esporte acontecer é o atleta. E ele precisa estar no melhor de sua forma física se quisermos ter um bom espetáculo para mostrar ao público e, dessa forma, ter um produto de maior qualidade para vender.

No Brasil, os dirigentes não conseguem ter essa praticidade de pensamento. Olham para o calendário em busca de preencher o maior número de datas disponíveis com jogos para, então, faturar mais da televisão, que é a única fonte de receita considerável que resta para os clubes. Outro dia, Abel Ferreira, técnico do Palmeiras, deu uma aula ao falar sobre isso. Relacionou a pretensa “falta de velocidade” do futebol brasileiro a, na verdade, “falta de descanso” dos jogadores. E usou um argumento lógico para mostrar que o atleta brasileiro sabe jogar em alta rotação: como eles atuam nessa velocidade na Europa.

A segunda dose, revisada e ampliada, de pandemia no Brasil poderia ser usada pelo futebol brasileiro para fazer o bem. Era o momento para rever como são jogados os Estaduais, os regionais e a Copa do Brasil. Até mesmo o Brasileirão pode ser repensado para adotar um modelo mais parecido com o das ligas americanas, que garante maior imprevisibilidade e, assim, pode gerar mais receita para todos.

O problema é que quem diz que manda no futebol brasileiro não entende, também, que mandar é algo muito diferente de liderar. E, desde sempre, falta uma liderança de fato no esporte brasileiro.

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