Opinião

Opinião: treinador é o maior representante de um clube

por Duda Lopes
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Ao longo da semana, foi bastante discutido entre jornalistas e torcedores o tom exaltado do técnico do São Paulo, Fernando Diniz, sobre o jogador Tchê-Tchê. O técnico usou e abusou de ofensas e palavrões para cobrar o atleta durante a partida em que sua equipe foi goleada pelo Red Bull Bragantino.

Há um certo consenso que Diniz reproduziu a atitude abusiva entre um chefe e um empregado, ainda que exista uma parcela considerável de torcedores e atletas que entenda que a forma agressiva é aceita dentro do universo do futebol. Justificam com a suposta boa relação entre o treinador e os jogadores do Morumbi.

A defesa é um pouco complicada porque há o entendimento que não possa haver mudança nesse tratamento. É algo alinhado àqueles que acham que ofensas racistas podem ser toleradas no gramado porque, em campo, há uma espécie de ‘vale tudo’ pela vitória.

Essa ideia boleira, meio de várzea, parece completamente desconectada com um futebol cada vez mais profissional. Uma boa indicação é que, na Europa e nos Estados Unidos, mercados mais bem desenvolvidos, é difícil ver uma relação tão abusiva como acontece no Brasil, a considerar treinador e jogador. Problemas acontecem, mas é difícil ver uma cobrança como a sofrida por Tchê-Tchê.

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Fernando Diniz é hoje o representante do futebol do São Paulo (Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net)
Fernando Diniz é hoje o representante do futebol do São Paulo (Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net)
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Se essa relação está tão enraizada no futebol a ponto de ser defendida por alguns, é preciso alguma interferência dos próprios dirigentes dos clubes. Pelo menos daqueles que querem promover uma imagem minimamente profissional da entidade.

Isso é importante especialmente no Brasil porque técnicos são extremamente valorizados e acabam sendo o símbolo máximo de uma equipe. Basta lembrar do status obtido por Jorge Jesus no Flamengo em 2019, quando o técnico português foi colocado como o grande responsável pela equipe vencedora.

Em 2010, quando Dunga saiu da seleção para dar lugar a Mano Menezes, houve um consenso nos bastidores: para os patrocinadores do time, era um alívio a troca. Mano, longe de ser santo no gramado, era um lorde comparado a Dunga em entrevistas coletivas. O treinador anterior chegou xingar diretamente um jornalista em evento oficial.

Naquele momento, era claro para a CBF a importância que o técnico tinha para a imagem da seleção e o quanto medidas fora do padrão assustavam parceiros comerciais. Depois, a direção da confederação mudou, e os erros foram repetidos.

O São Paulo precisa saber que, para vestir a camisa do time, tem que ter uma postura socialmente aceitável. O técnico é a maior voz de tudo o que acontece na parte esportiva de um clube de futebol. Se não for capaz de ter uma comunicação civilizada, o profissional não pode servir, por mais eficiente que ele seja.

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