Opinião

Opinião: Seja bem-vindo, futebol

por Álvaro Cotta, especial para a Máquina do Esporte
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Nesta semana, a imprensa noticiou um novo movimento dos clubes de futebol da primeira divisão cujo objetivo é iniciar um processo de criação de uma liga. As informações, confirmadas por alguns dirigentes em entrevistas, indicam que o interesse desta nova liga é ter uma gestão independente dos seus eventos, o Campeonato Brasileiro das Séries A e B.

Apesar de as ligas esportivas serem modelos antigos e consolidados no mundo, mais especificamente nos Estados Unidos e, mais recentemente, na Europa, elas são uma novidade no Brasil. Pode-se imaginar que esse movimento dos clubes será um desafio quando algumas variáveis da implementação são consideradas: as estruturas federativas tradicionais do esporte, as relações institucionais entre os poderes e os agentes do sistema nacional do desporto, as constituições políticas das entidades, as visões da gestão do esporte em suas diversas categorias, as legislações federais (não somente do desporto)...

Os motivos de os clubes buscarem, ou discutirem, a constituição de uma liga independente são comuns e ressurgem de tempos em tempos. O principal, normalmente, é a baixa participação nas decisões que impactam diretamente seus negócios, tais como calendários, regulamentos, acordos comerciais, distribuição de recursos ou benefícios, etc. Quando insatisfações ultrapassam alguns limites, as forças de manutenção dos status quo são testadas.

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NBB é fruto de uma sólida união dos clubes em torno de um interesse comum
Divulgação
NBB é fruto de uma sólida união dos clubes em torno de um interesse comum
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A dissolução do Clube dos 13 e a histórica terceirização dos direitos comerciais para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Rede Globo podem despertar insegurança em qualquer nova mobilização. Adicione-se a isso as diferenças dos interesses individuais dos clubes de futebol no Brasil, e o cenário cria uma instabilidade na mobilização.

A fundação de uma liga independente pelos clubes exigirá muito esforço, paciência e energia. Mas principalmente uma defesa pelos interesses coletivos acima dos individuais. É nesse momento que as iniciativas costumam fracassar.

A Liga Nacional de Basquete (LNB) conseguiu, com sucesso, atravessar esses obstáculos. Hoje, os clubes amadureceram a governança e os processos decisórios. As diferenças são discutidas e debatidas nas reuniões do Conselho, mas a votação é respeitada por todos. É um grande exercício democrático. Em apenas 13 anos, já foram seis presidentes que praticam a mesma filosofia.

As referências positivas dos mercados internacionais são uma boa indicação das possibilidades reais e dos resultados potenciais. É um processo, longo e contínuo, com muitas dificuldades e aprendizados. Não é uma guerra, muito pelo contrário. É um movimento que pode fortalecer o futebol, em todos os níveis.

Mas, seja através da uma liga ou não, a vontade de uma maior participação dos clubes nas decisões sobre seus negócios demandará uma transformação no formato atual das relações deles mesmos com a confederação. E essa mudança pode ser bastante positiva para as entidades, os clubes, o mercado, as marcas, os atletas, os treinadores e os fãs.

Álvaro Cotta é diretor comercial da Liga Nacional de Basquete (LNB) e escreve mensalmente na Máquina do Esporte

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