Opinião

Opinião: Por outros ângulos, ‘vaquinha’ pode ser funcional a clubes

por Duda Lopes
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Nos últimos dias, uma velha discussão voltou a rondar o mundo do futebol: as ‘vaquinhas’ de torcedores para ajudar os times. Dessa vez, a bola foi levantada pela torcida organizada “Gaviões da Fiel”, que tem erguido a bandeira pela criação de um fundo para o pagamento da Neo Química Arena. O assunto é sempre rechaçado pelos profissionais do marketing esportivo, mas a diretoria do time, liderada pelo superintendente José Colagrossi, ex-Ibope Repucom, tem levado ao assunto a sério. E a equipe faz bem.

Doações de dinheiro muito raramente funcionam no esporte, e há diversos casos que comprovam essa linha. Recentemente, Santos e Cruzeiro também tiveram iniciativas do tipo, sem nenhum sucesso. Na última década, o Palmeiras tentou levantar com os torcedores R$ 21 milhões para a contratação do volante Wesley, mas a quantia ficou bem longe do total.

Há exceções, é verdade. O caso mais emblemático talvez seja o do Hearts, da Escócia, que na década de 2010 quase fechou as portas. A equipe foi resgatada financeiramente após a criação de uma associação de torcedores que, com doações mensais, conseguiram manter a equipe em atividade.

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Organizada quer levantar fundos para Neo Química Arena
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O ponto central é a crença de que o torcedor está distante de qualquer outro consumidor de entretenimento e que, portanto, teria mais abertura para o repasse financeiro. É aquela velha ideia de que o time tem ‘x’ milhões de torcedores, então se cada um doar R$ 1 por mês, os problemas estão resolvidos. Uma enorme bobagem; ninguém rasga dinheiro.

Mas então a ‘vaquinha’ corintiana é uma péssima ideia? Financeiramente, provavelmente. Mas, estrategicamente, nem tanto. A direção do Corinthians, sabiamente, quer repensar as doações para dar contrapartidas aos torcedores que se disponibilizarem a ajudar. Ou seja, quer fazer disso um produto, o que certamente atrairia mais verba.

A importância do produto transvestido de ‘vaquinha’, porém, vai além das finanças em curto prazo. Ela agrega um sentimento de pertencimento a uma arena construída a toque de caixa para uma Copa do Mundo. A sensação de participação dos torcedores na construção de um símbolo do time, como o estádio, passa longe das mais recentes estruturas esportivas, seja no Brasil ou no mercado estrangeiro. A ideia de ‘casa’ ficou no passado, mas deve ser recuperada.

Além disso, a criação de um produto com uma torcida organizada muda completamente a relação entre os dois lados. Por todo o Brasil, as organizadas atuam como agentes à parte das entidades esportivas, o que as tornam geradoras de problemas, nunca de soluções. Novamente, a sensação de pertencimento muda o tom do diálogo, o que pode ser estendido a questões mais sensíveis, como a violência no futebol.

Nenhum torcedor é obrigado a arcar com as péssimas administrações dos times de futebol. Mas, se há uma diferença entre o fã e o consumidor, é que o primeiro pode e deve fiscalizar, cobrar e, mais importante, criar soluções.

O gestor, por sua vez, tem que tirar os gessos da teoria para escutar o torcedor. Muitas vezes, a solução não está na ideia em si, mas no simples ato do diálogo com quem faz do esporte uma enorme paixão.

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