Opinião

Opinião: Os direitos de transmissão alcançaram o seu devido valor

por Evandro Figueira, especial para a Máquina do Esporte
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Um dos assuntos do momento no universo do esporte é a questão dos direitos de transmissão. Muitos especialistas afirmam que o esporte é o “último respiro” da TV linear como conhecemos hoje. Em um mundo totalmente voltado para o consumidor, em que é ele quem escolhe a plataforma, o horário e a forma de consumir o conteúdo, o esporte é o único que consegue “marcar um compromisso” com o seu público e tira um pouco o controle da mão do usuário. Afinal, são pouquíssimos os fãs que aceitam assistir apenas à reprise de um jogo; a esmagadora maioria quer consumir o esporte ao vivo. E é por isso que os direitos de transmissão de um evento esportivo valem muito. Ser a “emissora oficial” (talvez uma expressão já seja meio antiquada, que deveria ser substituída por “plataforma oficial”) de determinado evento esportivo traz prestígio e audiência, o que obviamente resulta em aumento de receita e um número maior de venda de assinaturas e/ou patrocínios.

Os direitos de transmissão são a principal fonte de receita para a maioria das grandes ligas. No caso do esporte nacional, chegam a representar, às vezes, mais de 80% da receita anual de clubes menores. Esse é o motivo pelo qual o esporte em todo o mundo se esforçou muito para a criação de protocolos que garantissem um retorno mais rápido às atividades, mesmo que inicialmente sem público. A receita de mídia e a exposição dos patrocinadores na mídia foram as responsáveis por boa parte das receitas de clubes e ligas ao longo da pandemia.

Havia, antes mesmo do início da pandemia, uma sensação de que os valores pagos por direitos de transmissão tinham chegado ao limite em todo o mundo. Se formos analisar apenas o mercado que existia naquele momento, o crescimento era difícil, não por falta de interesse, mas pela dificuldade de a conta fechar.

Mas, de lá pra cá, muita coisa mudou e para melhor. Recentemente, a NFL provou a sua força na mídia americana e conseguiu praticamente dobrar sua receita na renovação dos acordos com Disney, Fox, NBC, CBS e Amazon, chegando a impressionantes US$ 100 bilhões no contrato que vai de 2023 a 2033. A Amazon, aliás, que antes dividia as transmissões do “Thursday Night Football” com a Fox, terá neste novo contrato a exclusividade dos 15 jogos das noites de quinta-feira ao longo de cada temporada pagando, para isso, US$ 1 bilhão por ano.

Especula-se também que, na Itália, a Sky não fez a leitura certa do processo de concorrência pelos direitos da Série A e acabou perdendo os direitos do principal pacote de jogos para o DAZN. A Sky apostou que o mercado não estava aquecido, fez uma proposta mais baixa e acabou sendo derrotada.

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Eventos esportivos ainda são um dos poucos conteúdos que não são consumido sob demanda na mídia
Reprodução
Eventos esportivos ainda são um dos poucos conteúdos que não são consumido sob demanda na mídia
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O Facebook, que até algum tempo atrás era um investidor no esporte ao vivo, ajustou a sua estratégia e tirou o pé. Não fez proposta pela renovação dos direitos da Champions League e já avisou que, ao terminar o atual ciclo com a Conmebol Libertadores, também não irá renovar. A América do Sul, por sinal, era o último território que ainda não estava alinhado com a estratégia global do Facebook de apenas adquirir conteúdos “non-live”. E não é por falta de dinheiro, uma vez que a plataforma investiu mais de US$ 100 milhões para ter apenas os direitos de highlights da principal competição de críquete da Índia. Trata-se, na verdade, de outra coisa: é uma questão de fazer ou não sentido para os principais objetivos da rede social, que são permanência e engajamento.

A Amazon, que por aqui continua apenas com conteúdos de entretenimento, já investe pesado em esporte em outros territórios. Não é só na NFL nos Estados Unidos, não. No Reino Unido, o Prime Video é a casa exclusiva de duas rodadas da Premier League, além de ter um grande pacote de eventos de tênis. A gigante global ainda comprou os direitos de um pacote de jogos do torneio de Roland-Garros na França, adquiriu direitos para um pacote da Champions League na Itália e na Alemanha, e também de eventos locais de natação na Austrália. Ao contrário da Netflix, que ainda não se aventurou pelo mundo do esporte, a Amazon, que começou como um “simples” e-commerce, está ampliando seu leque de ofertas e parece ser apenas uma questão de tempo e da propriedade certa para se aventurar em um novo mercado.

Aqui no Brasil também tivemos recentemente movimentos interessantes. O SBT, que já exibia a Copa do Nordeste em alguns estados da região, se tornou o novo parceiro da Conmebol para a Libertadores em TV Aberta. A entidade que comanda o futebol na América do Sul criou também a sua própria oferta de PPV para Libertadores e Sul-Americana, e parece que a aposta deu certo: os resultados estão aparecendo, com o aumento da audiência média, recorde de audiência na final entre Palmeiras e Santos em janeiro, e com os anunciantes também acreditando neste novo player do esporte. O apetite, inclusive, não parou por aí: nos últimos meses, o SBT ainda garantiu os direitos da Copa América 2021 e da Champions League e Europa League por três temporadas, começando em 2021/2022.

Além do SBT, as outras emissoras abertas também voltaram a abrir espaço em sua programação para o esporte. A Record TV, por exemplo, comprou os direitos do Campeonato Carioca, com exibição programada apenas para o estado do Rio de Janeiro, mas despertou o interesse de algumas de suas afiliadas que passaram a exibir o torneio em outras partes do país.

A Band, com a tradição que sempre teve no esporte, adquiriu os direitos da Bundesliga, da Serie A (Campeonato Italiano), do Brasileirão Feminino e do Brasileirão Sub-20, além da Fórmula 1 e da Stock Car, após a decisão da Globo pela não renovação.

Por último, até a TV Cultura, que não tinha esporte em sua grade há muito tempo, está aproveitando a onda e adquiriu os direitos da Fórmula E, da Fórmula Indy e de uma partida semanal do NBB.

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O esporte movimenta e dá resultados comerciais e de audiência. Por isso, vem despertando os interesses de todas as plataformas de mídia, sejam elas TVs (aberta e fechada), plataformas de streaming, redes sociais etc. A concorrência nos próximos anos deve aumentar, uma vez que é possível ver os grandes grupos de mídia investindo pesado no streaming, com o esporte passando a ser uma vertical importante na atração e retenção dos assinantes.

Em resumo, o espaço do esporte na mídia vem aumentando. Os resultados estão cada vez mais sendo alcançados. E, quanto mais positivos forem esses resultados, maior será o interesse, maior será a concorrência e mais valiosos serão os direitos de transmissão.

Evandro Figueira é vice-presidente da IMG no Brasil e escreve mensalmente na Máquina do Esporte

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