Opinião

Opinião: Obrigatoriedade, Necessidade ou Oportunidade

por Ana Lorena Marche, especial para a Máquina do Esporte
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Em praticamente todos os eventos, clubes, campeonatos, universidades, pesquisas, e em diversos outros locais que visito ou participo, um tema nunca sai de pauta: a obrigatoriedade dos clubes em terem equipes femininas, seja própria ou em parceria, o famoso Licenciamento. Parece-me, às vezes, que o Regulamento de Licenciamento de Clubes se resume à exigência de equipes femininas, mas será mesmo que é só isso? Será que ele não pode ser um aliado?

A lógica das confederações e federações exigirem de seus filiados pré-requisitos para as disputas de suas competições é antiga. A Uefa já utiliza desde 2003, com diversas punições para seus clubes nesse tempo, e a Fifa colocou em seu estatuto no ano de 2007, exigindo dos membros da entidade sistemas de exigências. As licenças surgiram com o objetivo de elevar o nível das suas competições, exigindo de seus clubes filiados melhores práticas de gestão e transparência, com diversos pré-requisitos.

No Licenciamento brasileiro, exigido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), temos ao todo 34 requisitos, que são divididos em cinco critérios técnicos: desportivos, infraestrutura, administrativos e capital humano, jurídicos e financeiros. A exigência da equipe feminina, adulta e de base, é um deles e está dentro dos vários requisitos dos critérios desportivos.

O licenciamento é muito mais que simplesmente uma obrigatoriedade; é uma exigência de melhores práticas de governança por parte dos clubes, para que ajam de acordo com seus estatutos e façam um futebol cada vez mais inclusivo e sustentável. Lembrando que está dentro do estatuto da Fifa, das confederações e da maioria dos clubes, fazer futebol para todos e com equidade de oportunidades.

Incluir algumas exigências com relação ao esporte praticado pelas mulheres ou do próprio campeonato feminino já é uma prática comum no mundo. Segundo o último relatório Dida Benchmarking Report Women’s Football, de 2021, que analisou os 30 principais campeonatos nacionais de futebol de mulheres no mundo, 19 deles já possuem licença de clubes vigentes em seus países, cada um com a sua característica local e requisitos, o que mostra a tendência mundial nas exigências das entidades organizadoras e que também está ajudando muito na melhora de estrutura do futebol jogado por mulheres em geral. Outro dado interessante é que mais de 66% dos clubes participantes dos campeonatos já fazem parte de uma equipe masculina, com tendência de aumento.

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Utilizar a base de fãs já estabelecida, estrutura física, administrativa, médica, entre outras, está se mostrando um bom negócio e está ajudando no crescimento geral das ligas, suas estruturas e, consequentemente, também das equipes que não possuem equipes masculinas ou naquelas em que o time masculino não é tão bem estruturado.

Vi de perto esse acontecimento dentro da Ferroviária, um dos projetos pioneiros do futebol feminino brasileiro, que nunca teve as mulheres por exigência, mas por acreditar no potencial da categoria e das mulheres. Com certeza, o Licenciamento brasileiro ajudou e muito na melhora de suas estruturas nos últimos anos, pois, ao entrar clubes de elite masculino, com maior poder aquisitivo, a Ferroviária precisou se reestruturar em diversas áreas, inclusive na profissionalização, com contratos longos, categorias de base, entre outras. Só assim poderia continuar competindo na elite, de igual para igual, e com possibilidades de títulos.

A utilização de licenciamentos para as competições também pode ser e é um aliado importante na profissionalização da categoria, principalmente com clubes masculinos já profissionais. Ainda estamos longe desse patamar, já que, das 30 ligas analisadas pela Fifa, apenas 37% são inteiramente profissionais. Mas um dado chama atenção: as ligas que já são profissionais geram receitas maiores quando comparadas com as ligas semiprofissionais ou amadoras, lógica que também vale para os clubes que estão dentro das ligas profissionais, que tendem a ter mais receitas também. Ponto importante de ser observado e atacado: estratégias como regulamentos de licenças são fundamentais para a mudança dessa realidade, pois traçam parâmetros para seus clubes filiados, em que todos ganham a longo prazo.

A melhora das estruturas gerais com certeza ajuda muito no produto final: o jogo. No espetáculo, a visibilidade é consequência disso e o retorno financeiro também. Interessante observarmos que já temos dois terços das principais Ligas (66%) que possuem um patrocinador máster, mostrando uma tendência de mercado e que, sim, o futebol praticado por mulheres pode ser um atrativo para grandes marcas. Mesmo assim, qualquer iniciativa que possa ajudar a melhorar cada vez mais, de uma maneira geral, é bem-vinda. A cada ano que passa recordes e mais recordes são batidos na audiência e nos valores envolvidos em transferências de atletas, público, patrocínios, entre tantos outros que ainda estão por vir. Todos ganhamos com isso, principalmente as atletas, as grandes estrelas de tudo isso!

Ana Lorena Marche é coordenadora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol e escreve mensalmente na Máquina do Esporte

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