Opinião

Opinião: O streaming é a nova versão do sócio-torcedor?

por Erich Beting
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Durante a última década, o futebol brasileiro viu, nos programas de sócio-torcedor, sua tábua de salvação para gerar uma fonte de receita recorrente para além do patrocínio, da televisão e da venda de jogadores. Invenção genuinamente tupiniquim, o sócio-torcedor aproveitou-se lá no começo dos anos 2010 do bom momento na economia brasileira, da expectativa pela Copa do Mundo e da reforma e inauguração de alguns estádios para criar um modelo único de geração de receita.

Longe de ser perfeito, como sistematicamente lembramos aqui na Máquina do Esporte, os programas de associados precisavam de uma mudança de rumo para continuarem eficientes. Com a novidade sobre os estádios caindo e a economia do país em declínio, era natural que o torcedor repensasse a necessidade de pagar uma mensalidade para ter benefício na aquisição de ingressos para jogos.

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Como a oscilação nos programas de sócios não era tão significativa assim, os clubes seguiram tocando o barco sem se preocupar com a tempestade que estava lá na frente. A pandemia, porém, levou esse barco para o meio do caos.

Com uma lógica de negócios baseada na aglomeração de pessoas, o sócio-torcedor não tem razão de ser se não mudar radicalmente a oferta que faz para os seus clientes. Se, antes, a necessidade de mudança era para manter o barco em águas menos agitadas lá para frente, agora ela veio como uma manobra desesperada para não afundá-lo de vez.

E o que fizeram os clubes? Se, há dez anos, o modelo de venda privilegiada de ingressos parecia fazer sentido por toda a conjuntura socioeconômica do Brasil, agora é a criação de uma plataforma própria de streaming que se mostra como a aposta da vez.

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Não por acaso, desde o ano passado, quando o Bahia lançou o seu Sócio Digital, que os clubes começaram a correr atrás de modelos de negócios para ofertar conteúdo pago a seu torcedor. A ideia, neste 2020 que não acaba nunca, parece correta. Com as pessoas passando muito mais tempo dentro de suas casas e em frente de telas, consumir no tempo livre conteúdo do time de coração tem todo sentido.  O boom da oferta de streaming no Brasil é uma mostra de que esse é um novo hábito de consumo que criamos na pandemia e que é cada vez mais natural para nós pagarmos uma mensalidade em troca de acesso a conteúdo em áudio, texto e vídeo.

O problema é que esse hábito já vai mudar. Se, há um ano, praticamente havia uma dúzia de serviços de streaming para assinarmos no Brasil, agora a oferta é de, pelo menos, duas vezes mais plataformas. E crescendo... Naturalmente, a conta já começa a chegar no bolso do consumidor. Ter de pagar para ver é uma realidade, mas quanta verba e quanta disposição existirão para isso?

Nos EUA, vanguarda no consumo de mídia, toda a oferta de conteúdo migrou para o streaming. Mas qual o modelo de negócios que começa a vingar? Em vez de pagar pelo serviço, ele tem sido ofertado como bônus para aquisição de outros produtos ou serviços. Eu fecho o seguro do carro e ganho alguns meses de assinatura da plataforma X. Eu compro um computador e ganho de bônus um ano do streaming H. Esse modelo também começa a chegar no Brasil, mas ainda embarcado em forma de combo dentro das próprias plataformas e na assinatura de planos de internet.

O que isso tem a ver com o futebol? Tudo. O mar de águas tranquilas do streaming já começa a ficar cheio de tubarão. Um ciclone extratropical também se aproxima. É preciso repensar, antes mesmo de lançar, esse modelo. Se não, ele vira um novo sócio-torcedor. Com um problema ainda maior. O ciclo de vida desse produto tende a ser muito mais curto.

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