Opinião

Opinião: O futebol feminino vai criar algo nunca visto

por Ana Lorena Marche, especial para a Máquina do Esporte
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Ana Lorena Marche
Crédito: Arquivo Pessoal
Ana Lorena Marche
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Inédito e inovador. Não me refiro a essa coluna que terei o prazer de escrever mensalmente na Máquina do Esporte. Mas à visão dos fãs do futebol de mulheres e das próprias atletas, em pesquisa realizada pela Federação Paulista de Futebol sobre o futuro da modalidade.

O futebol feminino está, cada vez mais, abrindo portas. Nunca imaginei que minha vivência acadêmica como doutora em Ciência do Desporto e Coordenadora pedagógica da Universidade do Futebol fossem me levar ao mundo da gestão. Foram três anos como Coordenadora de Futebol Feminino da Ferroviária, até o convite para somar forças e coordenar o Departamento de Futebol Feminino da FPF.

Começo a primeira coluna com algumas reflexões a respeito das redes sociais, especialmente devido à ascensão das plataformas digitais e as oportunidades que essas ferramentas proporcionam. Hoje, qualquer pessoa pode se transformar em um produtor de conteúdo e desenvolver sua marca pessoal. E isso inclui as atletas, que desempenham um papel fundamental de porta-vozes de suas respectivas modalidades esportivas e contribuem diretamente pela visibilidade e desenvolvimento. Porém, diante do universo do futebol de mulheres, será que a forma como as jogadoras gerenciam suas publicações em redes sociais estão alinhadas aos interesses dos fãs e consumidores de futebol feminino? E como será que as jogadoras e o público enxergam as possibilidades para a modalidade nos próximos anos?

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Mesmo com todos os avanços vistos nas últimas décadas a respeito dos esportes femininos – principalmente o futebol –, os dados sobre as atletas, os fãs e os consumidores ainda são pouco explorados e pesquisados. E fato é que o espaço ocupado por esse tripé na cadeia de consumo é de extrema importância para a evolução em curso. Mas será que estão de acordo com o que o mercado está pedindo?

Para tentar responder essas e outras perguntas, em agosto de 2020, a Federação Paulista de Futebol organizou o Programa de Marcas Pessoais e Institucionais com as atletas do Paulistão Feminino daquele ano. O projeto, ministrado por especialistas de diversas áreas, tinha como objetivo capacitar as atletas com conceitos importantes de marca pessoal e o bom uso das redes sociais. Afinal, sabemos que elas podem aumentar a visibilidade da própria jogadora, e, consequentemente, contribuir com o crescimento da modalidade e dos clubes.

Além disso, outro objetivo era realizar uma pesquisa sobre as redes sociais das atletas e as percepções dos fãs do futebol de mulheres paulista – para produção de dados inovadores no mercado e fazer um paralelo entre as duas pontas.

O Programa contou com a parceria de Ana Kazz, estrategista em mídias digitais e pesquisadora da Universidade Alemã do Esporte, e Nicole Alison, fundadora e diretora da NA Sport e especialista em futebol feminino na Inglaterra. Ambas ajudaram em toda elaboração da pesquisa, dos resultados e das discussões.

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Participaram da pesquisa, 268 atletas do Paulistão Feminino, o que representa 85% do total de atletas da competição, e 985 fãs que responderam ao questionário on-line. Todos os estados, mais o Distrito Federal, foram representados na pesquisa, contudo, em sua grande maioria, 67% dos participantes eram do Estado de São Paulo. Ainda com relação aos fãs, 81% que responderam à pesquisa são mulheres. É muito importante olhar esse dado com atenção, pois os fãs que responderam à pesquisa são assíduos pela modalidade. Mais de 70% seguem mais de cinco perfis de atletas e a nota média do futebol feminino respondida por eles é superior ao masculino, mostrando que são fãs que acompanham o dia a dia da modalidade e das atletas. Por essa razão que era esperado um número maior de mulheres.

Porém, isso não quer dizer que homens não acompanham as mulheres jogando, já que quando olhamos dados do Ibope Repucon do Campeonato Paulista, percebemos que na TV o cenário é outro: temos maioria de homens.

Entre os temas preferidos das jogadoras nas postagens em redes sociais, estão: treinos, preparação física, times que atuam e a vida privada. Já os menos preferidos: polêmicas, causas sociais e políticas, e beleza e estilo. Contudo, quando olhamos os temas preferidos dos fãs, percebemos que o mais votado está relacionado ao apoio ao desenvolvimento do futebol praticado por mulheres, seguido por bastidores de jogo e treinos.

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Observamos uma diferença neste ponto de consumo e conteúdo publicado, já que o valor das marcas de atletas pode inclusive ser maior do que dos clubes que elas representam. A soma do poder de diferentes marcas pessoais em um propósito coletivo pode transformar uma modalidade e promover a mudança desejada pelas grandes estrelas do esporte: as atletas. Além disso, mostra a importância de uma boa gestão de marca pessoal, que pode trazer benefícios comerciais de longo prazo, não só para as próprias atletas, mas também para a cadeia produtiva ao seu redor.

As atletas mostraram que 89% são responsáveis pela própria postagem, contudo, 67% utilizam suas redes para fins profissionais também. O que mostra que as atletas querem utilizar suas redes, porém ainda não possuem direcionamento correto para isso. E fato é que não podemos negar a importância da autenticidade, algo primordial para fidelização dos fãs.

Outro ponto abordado foi com relação à imagem desejada pelas atletas em suas redes e a imagem que é percebida pelos fãs. Novamente, foram encontradas diferenças.

As atletas foram questionadas sobre a nota (1 a 5) que elas dariam sobre a importância de se apresentarem como divertidas, talentosas e bem-sucedidas, e, da mesma forma, os fãs também relataram como eles observavam as atletas sobre os assuntos. Segundo os resultados, a avaliação dos fãs teve médias superiores às indicadas pelas próprias atletas, com isso percebemos que os fãs dão notas mais altas aos mesmos atributos do que as próprias jogadoras e percebem nelas um valor que elas sequer reconhecem, mostrando mais uma vez o potencial que as jogadoras possuem na disseminação da modalidade.

Outro ponto interessante sobre o potencial do esporte foi que a amostra de fãs, que em sua totalidade, soube citar ao menos uma marca que apoia a modalidade, mostrando uma consciência de empresas que investem no futebol feminino. O que reflete também na preferência desses fãs-consumidores para comprar produtos que apoiam a modalidade, pois 90% dos participantes afirmaram que dariam sim prioridade para comprar produtos de marcas que patrocinam o futebol praticado por mulheres. A porcentagem também foi alta quando questionados se dariam preferência para comprar produtos que apoiam uma jogadora, com 76% respondendo positivamente.

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Após a coleta de todos os dados sobre o processo de construção de marca pessoal das jogadoras, além da percepção dos fãs deste esporte, fica claro que o futebol feminino chega para construir uma nova dimensão dentro do futebol. Até pouco tempo atrás, 1979 precisamente, o futebol significava um esporte jogado e apreciado apenas por homens. A percepção dos fãs mostra claramente esse novo caminho, já que 69% deles acreditam que o futebol praticado por mulheres irá criar algo nunca visto, revolucionando a modalidade como um todo.

O futebol feminino tem o potencial de ser a nova dimensão do futebol com um estilo autêntico das jogadoras, dentro e fora de campo, com grande acessibilidade das craques, um alto engajamento de fãs com atraente poder de compra – que priorizam marcas que apoiam o esporte que amam.

Modalidade esta que vai muito além do esporte, sendo encarada por fãs como uma causa que milita por um mundo melhor pela diversidade e por dar o merecido valor ao talento das mulheres.

E agora pergunto: vendo os dados e acompanhando o futebol de mulheres, você também acredita que estamos criando algo novo no cenário esportivo? E de que forma você pode ser um agente nessa transformação?

Ana Lorena Marche é coordenadora de futebol feminino da FPF e escreve mensalmente na Máquina do Esporte

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