Opinião

Opinião: Naomi Osaka, Copa América e nossa incapacidade de olhar o outro

por Erich Beting
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Duas notícias ocuparam boa parte do noticiário esportivo na segunda-feira. A principal delas, no Brasil, foi a confirmação, dada pela Conmebol, de que a Copa América será no país, depois de a entidade desistir da Colômbia, enfrentar problemas com a Argentina e ser recebida fraternalmente por nós.

A segunda, de repercussão mundial, foi a desistência de Naomi Osaka de disputar Roland Garros depois de vencer na primeira rodada. O motivo? A insistência da organização do torneio, com direito a multa seguida de nota oficial ameaçadora assinada pelas quatro grandes competições do calendário, de punir a atleta de outros Grand Slams se ela continuasse a se recusar a participar da entrevista coletiva pós-jogo.

Tanto num caso, como no outro, a total falta de capacidade de olharmos a dor alheia mostra que aprendemos quase nada com a pandemia. Parece que faz um século, e não um ano, que ainda estávamos trancafiados em nossas casas, com receio de sair e procurando olhar para quem mais estava passando por necessidade nesse período inédito em nossas vidas.

Logicamente que essa é uma generalização absurda. Avançamos muito em solidariedade, compreendemos que existem diferenças abissais, absurdas e injustificáveis de acúmulo de riqueza no mundo todo e entendemos que somos um grão de areia dentro de um deserto abarrotado de gente, de egos, de vontades e que, para o bem estar de todos, é preciso cada um abrir mão um pouquinho do que quer.

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Naomi Osaka desistiu de Roland Garros alegando depressão após multa e ameaça da organização para ela dar entrevista coletiva pós-jogos
Reprodução
Naomi Osaka desistiu de Roland Garros alegando depressão após multa e ameaça da organização para ela dar entrevista coletiva pós-jogos
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O problema é que, pressionados pelas questões financeiras, nós temos deixado de lado um dos bens mais preciosos no dia de hoje, que é a empatia. Se, antes, éramos estimulados a competir e acumular riqueza como sinônimo de prosperidade, agora fazemos isso muito mais por uma questão de sobrevivência.

Roland Garros não soube olhar a dor de Naomi Osaka. A intransigência em atender a um pedido da melhor jogadora de tênis da atualidade fará com que o público seja privado de seu talento numa das principais competições do circuito. Pior. Não só não olhou para Osaka, como impôs-lhe à força cumprir a regra. Por quê? Oras, sem a presença da tenista japonesa nas entrevistas, as marcas do torneio não aparecem tanto na mídia.

Da mesma forma, o governo do Brasil não olhou para os estragos da pandemia na hora de dar o pronto-aceite ao pedido da CBF de abrigar a Copa América. Pressionada pelo cumprimento de contratos de patrocínio e TV, a Conmebol queria fazer seu torneio de qualquer forma, sem correr o risco de adiá-lo por mais um ano ou de enfrentar o prejuízo financeiro do cancelamento.

Fez a opção mais conveniente, indo atrás do único país na América do Sul que tem estrutura e estaria disposto a organizar um torneio para tirar o foco de aumento da impopularidade do governo, dos protestos crescentes na rua e do noticiário negativo provocado pela CPI da Covid. É só notar como o tema Copa América dominou as manchetes, ofuscando a repercussão dos protestos de 29 de maio.

O nível de stress provocado pela pandemia começa a gerar ações práticas. Qualquer semelhança com o “Vem pra Rua” de 2013 começa a não ser mera coincidência. Assim como Naomi Osaka viu o copo da depressão transbordar ao ser enquadrada por Roland Garros e resolveu dar um basta no descaso dos organizadores do torneio com sua saúde mental, a Copa América corre o risco de ser um mico para a Conmebol e o governo brasileiro se não souber fazer o básico: ouvir e olhar o outro.

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