Opinião

Opinião: Godzilla vs Kong

por Evandro Figueira, especial para a Máquina do Esporte
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Batalha do streaming começa a interferir diretamente na vida do consumidor de esporte
Divulgação
Batalha do streaming começa a interferir diretamente na vida do consumidor de esporte
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O título da coluna deste mês é uma evidente referência ao filme lançado pela Warner Media no início de 2021, mas estou usando essa analogia apenas para mostrar o tamanho da briga pela atenção e, principalmente, pelo bolso do consumidor entre os gigantes (Godzillas e Kongs) da mídia.

Atualmente já temos pesos-pesados nessa luta presentes no Brasil. Netflix, Amazon Prime e Disney+, além do Globoplay, travam uma bela disputa. A Disney, por sinal, já anunciou que, em agosto, chega o Star+, o OTT que abrigará todo o seu conteúdo “não-infantil”. Além do conteúdo de entretenimento, o conteúdo da ESPN também será incorporado ao serviço que, assim, se tornará o primeiro app a trazer o “combo” entretenimento + esporte, pelo menos por aqui.

O mercado e os grandes players têm percebido que a briga vem se tornando a cada dia mais difícil e cara, e a disputa entre players globais e locais vai ficando a cada dia mais desproporcional. Recentemente, dois gigantes da mídia francesa (TF1 e M6) anunciaram um plano de fusão e estariam trabalhando para combinar suas propriedades com o objetivo de defender suas posições no mercado local. Hoje, as duas emissoras dividem, por exemplo, os direitos da Eurocopa em TV aberta e, juntas, projetam um EBITDA entre 250 e 350 milhões de euros ao ano.

Já a notícia que mexeu com o mercado de mídia global na última semana – a fusão entre Warner Media e Discovery apenas para o universo digital/streaming – formaria uma empresa com projeção de receita de 52 bilhões de dólares por ano, com EBITDA de 14 bilhões em 2023. Especula-se que a empresa já nasce com um valor de mercado de 150 bilhões de dólares e com mais de 200 mil horas de conteúdo de arquivo à disposição de seus assinantes.

Além disso, foi anunciada esta semana a compra da MGM pela Amazon, por 8,4 bilhões de dólares buscando, principalmente, um catálogo mais robusto com títulos de sucesso para sua plataforma Prime Video, como James Bond, Rocky e Pantera Cor de Rosa.

Mas você deve estar se perguntando: e o que isso tem a ver com esporte?

Eu respondo: absolutamente tudo!

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Em outros territórios, a Amazon já exibe conteúdo esportivo (NFL nos Estados Unidos, Premier League e ATP na Inglaterra, etc.) e cada vez mais demonstra interesse em expandir seu alcance, sempre buscando a oportunidade certa, no momento certo, nos seus principais mercados.

Nos Estados Unidos, a Paramount+ também já tem esporte no seu portfólio. É, por exemplo, a casa do Campeonato Brasileiro por lá. Já aqui no Brasil, atualmente, oferece apenas conteúdo de entretenimento, como filmes, séries, programas dos canais Viacom, etc.

Ainda por aqui, a Warner Media tem os direitos de alguns clubes no Campeonato Brasileiro e acaba de renovar os direitos da UEFA Champions League. No México, por exemplo, comprou também os direitos da Champions depois de vencer o bid e tirar o produto das telas da ESPN.

Voltando para o Brasil, a Discovery, por sua vez, tem apenas o Golf Channel entre suas propriedades esportivas por aqui, enquanto, na Europa, é dona da maior rede de canais esportivos do continente, a Eurosport, dona dos direitos dos Jogos Olímpicos em todos os territórios onde atua, além de conteúdos de peso em mercados específicos.

A chegada desses novos players também vai mexer com quem já está no mercado. Isso porque quem aqui está e quem tem direitos de eventos esportivos em seu portfólio precisará marcar território e defender sua posição. Globo e ESPN, de alguma forma, já sofreram com novos concorrentes no passado. Em 2012, o Fox Sports chegou ao Brasil e tirou a Libertadores do SporTV. Já em 2014, quando a Turner comprou o Esporte Interativo, tirou a Champions League da ESPN.

O consumidor estará sempre em busca do conteúdo de seu interesse, sem se importar muito com a plataforma em que está. É o conteúdo que estimula ou não a assinatura de um novo serviço. Conteúdos relevantes, organizados e produzidos com qualidade se darão bem na disputa, pois são eles que ajudarão a aumentar e, depois, manter a relevância das plataformas.

A concorrência é extremamente benéfica para quem vende conteúdo e, com isso, os conteúdos “premium” tendem a se valorizar. Quanto mais relevante, maior o seu valor. E o esporte está repleto de exemplos nessa linha, seja no mercado nacional, seja no mercado internacional.

No fundo, não importa tanto o tamanho da plataforma, mas sim quais públicos ela atende. Como o bolso do consumidor é um só (e todos nós sabemos que não é suficiente para todas as opções de assinatura), quem conseguir consolidar uma oferta diversificada que consiga “abraçar” as mais diversas audiências em uma única residência sairá ganhando em relação aos outros. Uma oferta que seja capaz de combinar esporte e entretenimento é, com toda certeza, a que mais terá chance de sucesso.

Evandro Figueira é vice-presidente da IMG no Brasil e escreve mensalmente na Máquina do Esporte

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