Opinião

Opinião: Flamengo prova que inovar é preciso. Mas antes...

por Erich Beting
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Flamengo teve problemas no serviço de streaming.
Crédito: Reprodução
Flamengo teve problemas no serviço de streaming.
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“Até a Netflix dá um mês de graça para o cara testar, mas a FlaTV tinha que testar com a gente já pagando, né? Depois toma um processo no Procon e reclama”.

O tuíte foi publicado por um grande amigo flamenguista depois de uma hora tentando acessar o sistema da FlaTV Mais, lançado pelo clube para vender as transmissões dos jogos do Campeonato Carioca e que ele já tinha feito a assinatura. Ele é daqueles torcedores fanáticos, a ponto de morar no Rio de Janeiro e preferir pagar e assistir pela Smartv a estreia do Rubro Negro no Cariocão do que sintonizar, de graça, na Record e acompanhar o time sub-20 contra o Nova Iguaçu.

O caso elucida bem algo que será mensurado com mais precisão agora. Depois da briga com a Globo em 2020, o torcedor do Flamengo comprou a ideia de pagar para ver o time jogar no Cariocão 2021. Esse meu amigo é um ótimo exemplo disso. Ele está disposto a inovar junto com o Flamengo. Mas o que ele espera, como qualquer consumidor, é que não seja enganado após uma compra.

O futebol brasileiro precisa inovar. Achar novas fontes de receita, mudar a relação subserviente que sempre teve com a mídia, atender de forma mais completa os torcedores. Mas não pode, de jeito algum, fazer isso sem antes testar, e muito, o funcionamento do sistema.

Durante quase um ano a Globo vendeu o serviço do Globoplay para as pessoas. Só depois de testar, retestar, mudar a plataforma e fazer o negócio progredir, passou a usar o canhão de mídia da TV aberta para anunciar o seu serviço de streaming.

Nos EUA, a Disney usou a ESPN como “cobaia” durante um ano até lançar o Disney+. Depois de testar o acesso simultâneo de transmissões ao vivo com o esporte no ESPN+, a empresa preparou a plataforma para lançar o streaming de séries e filmes.

Como citado por esse meu amigo, o Netflix te dá um mês para conhecer a plataforma, se acostumar ao serviço e, a partir daí, se tornar um assinante. Nesse período, já é possível conhecer hábitos de consumo e mapear possíveis falhas. A mesma coisa faz a Amazon.

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Se as quatro maiores empresas de streaming do Brasil fazem seu trabalho dessa forma, como poderia o Flamengo achar que daria para ser diferente? Mesmo com a “concorrência” da transmissão da Record, o clube não conseguiu aguentar o tranco dos acessos simultâneos e precisou derrubar o sistema.

É imperativo que o futebol consiga viver sem depender tanto da Globo, mas ele precisa, primeiro, se preparar para isso. É muita presunção achar que se está pronto para aguentar centenas de milhares de clientes tentando acessar o sistema de transmissão ao vivo em segundos.

Seria, basicamente, os fundadores da Netflix decidirem assumir a gestão de um estádio de futebol e fazer o controle de acesso aos torcedores num dia de jogo sem, ao menos, conhecer como funciona a operação de uma catraca.

Inovar é preciso. Testar e aprender antes de inovar é fundamental.

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