Opinião

Opinião: Eu e Sepp

por Ricardo Fort, especial para a Máquina do Esporte
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Joseph Blatter foi, até 2015, o homem mais poderoso do futebol
Divulgação
Joseph Blatter foi, até 2015, o homem mais poderoso do futebol
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Joseph Blatter, o então Presidente da Fifa, veio de braços abertos em minha direção falando em italiano “Ciao, Fort!”

O que aconteceu antes e depois daquele dia quando Joseph Blatter me deu um abraço caloroso, como se fôssemos amigos de infância, merece uma explicação. Só não sei se você vai acreditar na minha história.

No dia 27 de maio de 2015, às vésperas do 65° Congresso da Fifa em Zurique, uma ação conjunta da Polícia Suíça e do FBI prendeu 14 membros de Confederações e agências. A ação cinematográfica repercutiu mundo afora.

Poucas horas depois, enquanto eu ainda dormia tranquilo, meu telefone tocou na Califórnia. Do outro lado falava meu contato na Fifa. Ele me contou o pouco que sabia sobre o incidente daquela manhã em Zurique e me disse que a polícia estava no seu escritório confiscando computadores e recolhendo documentos.

Os meses que seguiram foram marcados por muita tensão. Enquanto a investigação acontecia nos Estados Unidos e na Suíça, a imprensa global cobrava uma atitude mais radical das marcas patrocinadoras da Fifa. Eu representava uma delas.

Blatter foi eleito mas não resistiu à pressão. Em poucos dias anunciou que convocaria uma nova eleição em fevereiro de 2016 e não concorreria à reeleição. Foi uma maneira pseudo-elegante de renunciar, mas ficar no cargo mais alguns meses à espera de um milagre que revertesse a sua decisão.

Entre o anúncio de Blatter e sua eventual suspensão pelo Conselho de Ética da Fifa, foi realizada uma reunião em Zurique para explicar as medidas que seriam tomadas para resolver “de uma vez por todas” a crise que se instaurara.

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Os cinco patrocinadores globais (Coca-Cola, Adidas, Visa, Kia-Hyundai e Gazprom) foram convidados a participar. Não lembro bem quem acabou indo, mas eu estava lá. Era um dia frio para o mês de setembro na Suíça.

A reunião aconteceu no bunker, a grande sala de reuniões no subsolo do escritório central da Fifa. Nesta sala, os membros do Conselho se reuniam para as decisões mais importantes no mundo do futebol. Não era um lugar frequentado pelos patrocinadores. As paredes em granito negro davam um ar refinado ao ambiente, contrastando com as mesas que ocupavam todo o perímetro como se fossem uma arquibancada. No centro, um tapete verde criava a ilusão de mini campo de futebol.

Os representantes dos patrocinadores para aquela reunião não eram somente os tradicionais profissionais de marketing esportivo e patrocínios, mas sim advogados e executivos sêniores. Todos vinham armados de perguntas contundentes e esperavam respostas claras dos dirigentes.

A reunião começou com os executivos da Fifa nos atualizando sobre como o trabalho continuaria normalmente. Estávamos nos preparando para a Copa do Mundo da Rússia e havia muito o que fazer. Para a decepção de todos, Blatter não estava na reunião. Ele não se envolvia na relação com os patrocinadores. Esta tarefa ficava a cargo do Secretário Geral Jérôme Valcke e sua equipe. Mas naquele dia especial, ele faria uma rápida aparição na reunião. Populista como poucos, Blatter sabia bem que o apoio púbico dos patrocinadores seria fundamental para diminuir a pressão sobre a Fifa.

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Ninguém naquela sala o conhecia muito bem, pois Blatter reservava seu tempo para os CEOs e Presidentes. Apesar de trabalhar há anos com a Fifa, eu o tinha visto não mais que quatro vezes.

Mas naquele dia, Blatter precisava de apoio moral. Ele tinha que mostrar que era um homem do povo e que adorava os patrocinadores. Quando queria, ele era encantador.

Quando entrou na sala após o intervalo do almoço, todos imediatamente silenciaram em sincronia. Sua presença podia ser sentida à distância. Gostasse ou não dele, ele se fazia notar.

Eu estava perto da porta quando ele chegou. Tinha pendurado em meu terno uma grande crachá com meu sobrenome em letras garrafais. Como entre mim e ele só haviam funcionários da Fifa, ele não teve dúvida. Veio em minha direção determinado a mostrar para todos os outros convidados como ele conhecia e gostava do “povo”. No caso, eu faria o papel de “povo”.

“Ciao Fort! Come stai?”.

Eu não tive dúvida e respondi em italiano mesmo, “Tutto bene. Grazie, Presidente” enquanto os outros vinte e tantos convidados prendiam a respiração, olhavam Blatter com curiosidade e para mim com uma cara de “não sabia que eles eram amigos assim”.

Depois dessa interação breve, surpreendente e bizarra, a reunião seguiu normalmente. Ele falou por meia hora, respondeu algumas perguntas, agradeceu o apoio e saiu da sala sem se despedir individualmente de ninguém.

Aquela foi a última vez que nos vimos. Poucos dias depois ele foi afastado do cargo e desapareceu do mundo do futebol. Eu não era seu amigo nem falava italiano. Mas naquele dia, todo mundo achou o contrário.

Ricardo Fort é fundador da Sport by Fort Consulting e escreve mensalmente na Máquina do Esporte

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