Opinião

Opinião: Engajamento é muito mais do que uma simples ação ou campanha

por Romulo Macedo, especial para a Máquina do Esporte
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No Mês do Orgulho LGBTQIA+, os clubes brasileiros pareceram muito engajados em se manifestar contra o preconceito no futebol. Quase todos os times das Séries A e B se manifestaram nas redes sociais, alguns de maneira mais discreta e outros mais efusivos.

Tiveram até alguns que saíram do ambiente on-line e partiram para ações inéditas. Vimos, como nunca, a bandeira do arco-íris pintada em números, bandeiras de escanteio, faixas de capitão e até na tradicional faixa diagonal do uniforme do Club de Regatas Vasco da Gama. O número 24, sumido dos gramados brasileiros, foi estampado nas costas do zagueiro Nino, do Fluminense.

Ações que possam parecer tímidas no combate à homofobia no futebol já mostram uma grande evolução dentro de instituições centenárias, contaminadas pela virilidade latente do esporte, com uma cultura empresarial ainda dominada por uma masculinidade tóxica e que apostam todo o engajamento das suas torcidas em vitórias e conquistas dentro do campo, deixando de lado os desejos e anseios dos seus torcedores.

O preconceito no futebol segue incrustado. Basta ver que são raríssimos os jogadores assumidamente gays em grandes clubes do futebol masculino mundial.

Os cânticos homofóbicos até hoje são entoados em muitos estádios ao redor do globo, e gritos de bicha e "viado" ainda permanecem anônimos nas arquibancadas. Mas é exatamente nessa atmosfera negativa que os clubes devem desempenhar a sua função de liderança.

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Kappa e Vasco lançaram camisa com as cores do arco-íris no lugar da tradicional faixa preta da camisa do Vasco
Divulgação
Kappa e Vasco lançaram camisa com as cores do arco-íris no lugar da tradicional faixa preta da camisa do Vasco
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Os consumidores modernos esperam que as marcas, incluindo clubes de futebol, demonstrem um grande nível de responsabilidade social.

Os clubes precisam estar alinhados com os valores e desejos de suas torcidas. Cerca de 70% dos torcedores brasileiros ouvidos no relatório "Fan of the Future", lançado em 2020 pela "European Club Association", concordaram com a afirmação: "os clubes de futebol têm responsabilidade para com a comunidade em geral e para ajudar a tornar o mundo um lugar melhor".

Engajamentos sociais genuínos são fundamentais para os clubes cumprirem os seus papéis com seus torcedores e suas comunidades, mas de fato devem ir muito além de ações pontuais em datas específicas. Trabalhar por uma sociedade melhor tem que ser um objetivo tão importante quanto ganhar jogos e títulos.

Será que esses mesmos clubes que realizaram grandes ações no Dia do Orgulho, aceitariam pessoas trans nos seus quadros de funcionários? Os torcedores poderiam pendurar faixas de torcidas LGBTQIA+ nos seus estádios? E usar a camisa 24? Ações pontuais têm o seu valor e devem ser respeitadas, mas um engajamento genuíno é muito mais forte e reverbera com muito mais intensidade em toda a sociedade. O primeiro passo foi dado, mas os próximos passos também precisam acontecer.

Romulo Macedo é sócio-fundador da Fan Experience 360 e escreve mensalmente na Máquina do Esporte

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