Opinião

Opinião: E se fosse aqui? Jogadora nos EUA teve denúncia de desigualdade atendida no ato

por Júlia Vergueiro, especial para a Máquina do Esporte
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Sedona Prince, do basquete universitário, usou as redes sociais para denunciar diferença entre homens e mulheres nos treinos
Divulgação
Sedona Prince, do basquete universitário, usou as redes sociais para denunciar diferença entre homens e mulheres nos treinos
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Há algumas semanas, um vídeo polêmico viralizou nas redes sociais: uma jogadora norte-americana de basquete universitário denunciou a clara disparidade entre a sala de musculação da equipe feminina e a da equipe masculina no maior torneio de basquete universitário do país. De forma irônica e bastante incisiva, Sedona Prince pegou seu próprio celular e mostrou que enquanto as mulheres tinham apenas alguns pesos disponíveis, os homens dispunham de um grande salão com diversos equipamentos e muito espaço para se exercitar.

Para nós, brasileiras, essa cena pareceu extremamente comum, nada diferente da realidade que vivemos no nosso esporte há décadas. Por aqui, apelos como o de Sedona podem até ganhar espaço na mídia, mas dificilmente são rapidamente e genuinamente atendidos. Por lá, no entanto, a resposta foi rápida e adequada, e o principal motivo vai muito além do poder das redes sociais: está na lei.

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Em 1972, o Congresso norte-americano aprovou uma lei chamada Title IX, que garantia a não-discriminação de meninas e mulheres em instituições de ensino, incluindo as atividades esportivas ali promovidas. Naquela época, apenas 15% dos atletas universitários eram mulheres, e as meninas representavam apenas 7% dos jovens jogando nas escolas de ensino médio¹.

"No person in the United States shall, on the basis of sex, be excluded from participation in, be denied the benefits of, or be subjected to discrimination under any educational program or activity receiving Federal financial assistance." - Title IX, Education Amendments of 1972

Quando Prince publicou seu vídeo, ela sabia que não estava exigindo “apenas” uma comoção pública – ela estava ancorada por uma lei que claramente não estava sendo cumprida. Mais do que um apelo, a jogadora estava fazendo uma denúncia de descumprimento legal. Não era a Prince contra a universidade, não eram as meninas contra os meninos, ou o feminismo contra o mundo. Um instrumento legal como o Title IX permite que a exigência pela equidade de tratamento e oportunidades seja colocada e recebida como ordem pública, e não como um pedido de uma ou algumas pessoas descontentes. Ou, no português de hoje em dia, “não é só mimimi”.

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Ontem, 14 de abril de 2021, marcou 80 anos do decreto-lei que proibiu a prática do futebol por mulheres no Brasil. Nesse mesmo 2021, daqui alguns meses, os EUA celebrarão os 49 anos da lei que proibiu a discriminação de gênero no esporte em instituições de ensino. Enquanto as brasileiras fugiam da polícia para conseguir jogar uma pelada sequer, as americanas conquistavam o feito de tornar a equidade de gênero no esporte uma obrigação federal.

Não tenho dúvidas de que já obtivemos diversas conquistas, principalmente nos últimos anos. Mas ainda estamos há anos luz de alcançar mudanças estruturais e de longo prazo. Muitas pessoas me perguntam se concordo com o mecanismo da CBF e da Conmebol que obriga os clubes a investirem na formação de equipes femininas, e sempre trago o exemplo do Title IX para responder que “sim, é necessário, comprovadamente eficiente”. E não é a Júlia ou as “feminazis” que estão dizendo, são os números:

“O número de meninas praticando Esporte no Ensino médio saltou de 291,015 em 1971-72 para 3,172,637 em 2009-10, um crescimento de 1079% (entre os meninos o crescimento foi de 22% no mesmo período). Nas universidades, o aumento entre as mulheres foi de 622%.”²

Se quisermos crescer significativamente a participação feminina nos esportes, precisamos que regras como as estabelecidas pelas Confederações sejam aplicadas para todas as outras esferas da sociedade nas quais o esporte está inserido. A desigualdade de gênero não acontece apenas nos clubes e federações, a bola não rola apenas nos grande estádios e Copas do Mundo – é no dia a dia que a transformação precisa realmente acontecer.

¹ Equality, sports, and Title IX – Erin Buzuvis and Kristine Newhall
² Title IX: 37 words that changed everything - espnW


Júlia Vergueiro é sócia e presidente do Pelado Real Futebol Clube, fundadora da Nossa Arena e escreve mensalmente na Máquina do Esporte 

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