Opinião

Opinião: Como investir na base do esporte a motor

por Luis Ferrari, especial para a Máquina do Esporte
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Dez entre dez entusiastas do esporte a motor normalmente me perguntam: quando teremos novamente um brasileiro na F1?

Embora hoje três pilotos do país tenham os pontos necessários para a superlicença, Sergio Sette Câmara, Pietro Fittipaldi (que é reserva na Haas) e Gianluca Petecof, e outros como Caio Collet (F3) e Felipe Drugovich (F2) estejam na rota para sonhar com a categoria máxima, a verdade é que o itinerário até a F1 ficou mais difícil para os brasileiros nas últimas décadas.

Obviamente existe o fator financeiro, pois não é tarefa fácil fechar no Brasil um patrocínio em reais e contratar uma equipe pagando em euros.

A concorrência também aumentou. Em comparação com o período áureo dos brasileiros na categoria, hoje há pilotos de mais nacionalidades ambicionando um lugar na F1 e bem menos cadeiras disponíveis.

Em suma, no cenário atual há basicamente duas maneiras de ingressar na categoria.

A primeira é comprar uma equipe aportando patrocínios de vulto, como Lawrence Stroll fez duas vezes para colocar seu filho Lance acelerando, primeiro na Williams e depois na Force India, hoje Aston Martin. Nicholas Latifi (Williams) e Nikita Mazepin (Haas) são outros casos emblemáticos de “paitrocínio” no grid atual.

A segunda, esta mais viável aos brasileiros, é o vínculo com programas de desenvolvimento de talentos das grandes potências da F1, as “academias”. Praticamente todos os times têm seus programas de desenvolvimento de talentos e acompanham pilotos desde o kart. Foi assim, por exemplo, que a McLaren apadrinhou o multicampeão Lewis Hamilton desde o início da adolescência.

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Matheus Ferreira, de 14 anos, é uma das promessas brasileiras no kart na classe OK Junior
Divulgação
Matheus Ferreira, de 14 anos, é uma das promessas brasileiras no kart na classe OK Junior
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São iniciativas que normalmente acomodam mais de uma marca, uma vez que as academias recebem de bom grado investimento adicional, por exemplo, de um patrocinador local de seus pilotos. Toda ajuda a pagar a conta na base é bem-vinda, mesmo para quem fatura em euro.

É justamente olhando para a base e visando construir relações de longo prazo que as oportunidades podem se apresentar viáveis para marcas brasileiras impulsionarem o talento do país nas pistas.

O kart nacional vive um ciclo virtuoso que, com raríssimas exceções, ainda não foi percebido por patrocinadores de relevo.

Há alguns anos, o brasileiro Felipe Massa é presidente da CIK-FIA, a comissão da entidade máxima do esporte a motor incumbida do kart. Entre suas realizações, o vice-campeão mundial de F1 em 2008 conseguiu trazer para o Brasil o Campeonato Mundial. Seria no ano passado, mas foi adiado para 2021 em decorrência da pandemia.

A pista paulista de Birigui receberá os principais pilotos do planeta em dezembro, e o Brasil tem chances reais de disputar mais de um título em casa. Até hoje, apenas três brasileiros conquistaram o título do mundo na modalidade: Augusto Ribas (1986), Gastão Fraguas (1995) e Ruben Carrapatoso (1998).

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Os principais candidatos a repetir a façanha são o pernambucano Rafael Câmara, de 16 anos, na classe OK, e o brasiliense Matheus Ferreira, de 14, na classe OK Junior. Os dois correm neste fim de semana pelo prestigiado título do Campeonato Europeu, na pista espanhola de Zuera.

Vice-campeão mundial em 2019, Câmara é terceiro no campeonato e concorre com o italiano Andrea Kimi Antonelli (que é piloto de desenvolvimento da Mercedes) e com o britânico Arvid Lindblad (piloto da Red Bull). Agenciado por Dudu Massa e correndo com as cores da Oakberry, Rafa já testou de F4 e deve fazer a migração para os carros em 2022. Ele foi o melhor kartista do mundo no primeiro semestre, conquistando todos os títulos que disputou até aqui.

Matheus aparece em segundo lugar na tabela de pontos do Europeu e é agenciado justamente por Gastão Fraguas, que trabalha também com Caio Collet.

São exemplos de que, como na época de Emerson, Piquet e Senna, o talento brasileiro continua florescendo desde a base. E continua dependendo de empresários e patrocinadores de visão para chegar ao nível mais alto.

Luis Ferrari é fundador da Ferrari Promo e escreve mensalmente na Máquina do Esporte

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