Opinião

Opinião: Com a palavra, os atletas

por Sergio Patrick
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Naomi Osaka abandonou o torneio de Roland Garros por não querer conceder entrevistas coletivas
Reprodução
Naomi Osaka abandonou o torneio de Roland Garros por não querer conceder entrevistas coletivas
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Peço permissão para te convidar para uma viagem no tempo. A um passado não muito distante. O ano é 1998. Michael Jordan ganhava seu último título pelo Chicago Bulls na NBA. No tênis, Roger Federer jogava pela primeira vez contra um top 10, com derrota para Andre Agassi na Basileia, e Serena Williams fazia sua estreia em torneios de Grand Slam sem passar das oitavas de final. Naomi Osaka completava um ano de idade e, imagino, dava seus primeiros passos.

Para Jordan, Federer e Williams, as entrevistas coletivas depois das partidas eram a grande oportunidade de contato com o público, momentos para ir além do que se via nas quadras. Era hora de revelar traços de personalidade que seriam decisivos para que as pessoas passassem a seguir os passos deles ou dela.

A internet engatinhava e havia quase nada das redes sociais que hoje ocupam boa parte do nosso tempo. Nossos telefones celulares eram usados para, pasmem(!), falar com outras pessoas e, vez ou outra, enviar e receber mensagens. Eu era um jovem repórter que usava um gravador com fita cassete para registrar encontros com personalidades do esporte.

De lá para cá, muita coisa mudou rapidamente. Federer e Serena ainda estão na ativa, e Osaka se tornou uma das maiores tenistas do mundo. Hoje, os atletas têm nas redes sociais uma conexão direta com milhões de fãs. Postam detalhes da rotina de treinos, bastidores das viagens, expõem seus patrocinadores e parceiros, e, principalmente, dizem ao mundo como se sentem a respeito dos mais diferentes assuntos.

Nesse tipo de comunicação, o atleta (ou a equipe que o assessora) determina a frequência e os assuntos a serem abordados. E isso pode impactar a autenticidade. Por isso, ainda sou fã das entrevistas. As conversas com protagonistas do esporte são certamente minhas melhores lembranças do tempo como repórter e apresentador no Brasil. Para mim, era um ritual que começava com a pesquisa e passava, se possível num contato direto, por uma conexão marcante com o entrevistado.

Mas precisamos falar das coletivas. Coletivas são aquelas nas quais um atleta (ou treinador) responde perguntas de jornalistas de diferentes veículos de comunicação, geralmente sentado em uma bancada com marcas por todos os lados. Trata-se de uma solução com foco na eficiência, mas que certamente peca quando o assunto é a qualidade da interação atleta/mídia. Justamente o que incomoda Osaka, de acordo com os posts da tenista nas redes sociais.

Como jornalista, participei de inúmeras entrevistas coletivas. Nunca gostei do formato. Naquele ambiente, jornalistas competem pela ordem das perguntas e muitas vezes se sentem pressionados. Sem contar quando os colegas fazem as perguntas que você tinha preparado para aquele momento. Chega sua vez, e você acaba preenchendo o espaço com algo que não necessariamente vai acrescentar para a entrevista. Além disso tudo, muitas vezes também não existe espaço para que um repórter aprofunde um assunto ou rebata uma afirmação dada na resposta.

A indústria do entretenimento, especialmente o cinema, tem usado há anos o formato com pequenas entrevistas exclusivas nas campanhas de lançamento de um filme, por exemplo. Tempo marcado e curto, é verdade, mas um ambiente que deixa jornalista e entrevistado mais à vontade. Sem contar que cada jornalista pode customizar o conteúdo de acordo com as necessidades de formato e público. Talvez não seja a saída para todos os eventos esportivos ou para todas as circunstâncias, mas é fundamental aproveitar o tema levantado por Naomi Osaka para debater o assunto.

A tenista japonesa colocou a saúde mental dos atletas em discussão em todo o mundo com dois tweets. Não precisou de uma entrevista coletiva. Organizadores de grandes eventos e dirigentes precisam entender as novas formas de comunicação para encontrar soluções que tenham a participação direta dos atletas. O apoio de várias estrelas do esporte à tenista deixa claro que o tempo para esse tipo de imposição já passou.

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