Opinião

Opinião: Automobilismo, esporte olímpico. Virtual

por Luis Ferrari, especial para a Máquina do Esporte
A
A

No mesmo dia em que Max Verstappen levantou o tradicionalíssimo GP de Mônaco e assumiu pela primeira vez na carreira a liderança do Mundial de Fórmula 1, o automobilismo deu mais um passo decidido rumo à nova realidade da era digital.

O dia 23 de maio marcou o encerramento da fase classificatória para os Jogos Olímpicos. Em parceria inédita entre FIA (Federação Internacional de Automobilismo) e COI (Comitê Olímpico Internacional), o esporte a motor pela primeira vez na história integra o programa olímpico. E em sua versão virtual!

O game selecionado foi o Gran Turismo, menos realista que plataformas como iRacing e Asseto Corsa. Porém, é um game muito mais difundido globalmente.

Foram dez dias de seletiva mundial com os pilotos correndo contra o relógio em busca de 16 vagas para a final mundial do Olympic Virtual Series. A decisão terá três corridas em 23 de junho, o “Dia Olímpico”, data que celebra a abertura da primeira edição da Olímpiada moderna em 1894.

O Brasil será representado por Igor Fraga, piloto que foi revelado no universo dos simuladores e disputou temporadas internacionais nos autódromos do mundo real, inclusive vencendo o campeonato da Toyota Racing Series na Nova Zelândia e integrando por uma temporada o programa de desenvolvimento de talentos da Red Bull. Outros cinco pilotos do País ficaram entre os cem melhores do mundo na seletiva olímpica.

A chancela de COI e FIA –duas entidades para lá de tradicionais na cena esportiva global– ao automobilismo virtual reforça o enorme potencial desta modalidade de e-sport. O esporte a motor está numa posição singular de valorização neste panorama, por diversos fatores.

Em primeiro lugar, por um aspecto desportivo: o simulador de automobilismo é por excelência o que melhor replica as condições do esporte “de verdade”. Nenhum craque de Fifa Soccer vai sair driblando como o Neymar ou nenhum mestre de NBA 2K21 enterrando como o LeBron James. Mas os pilotos de AV (automobilismo virtual) podem sim obter sucesso nas pistas do mundo real, como já mostraram o próprio Igor Fraga e Jeff Giassi, multicampeão brasileiro de iRacing que cravou pole position em prova de 500 km da Porsche Cup em Interlagos e vai disputar o campeonato de Endurance do mundo real neste ano.

A rigor, a simulação do automobilismo é praticamente perfeita no AV. Salvo pela força G sobre o piloto, todos os demais aspectos do motorsport são realisticamente replicáveis pela tecnologia atual.

publicidade
Imagem da Olympic Virtual Series do Gran Turismo
Divulgação
Imagem da Olympic Virtual Series do Gran Turismo
publicidade

Outro ponto auspicioso é o tamanho da fatia do AV no universo dos e-sports. Hoje, se comparado com blockbusters como LoL, Fortnite e Counter-Strike, o esporte a motor nos simuladores é pequeno. Ou seja, o potencial de crescimento desse mercado é tremendo.

A pandemia serviu como catalizadora do desenvolvimento do AV, colocando os simuladores nas principais vitrines globais. A própria F1 realizou suas corridas virtuais na impossibilidade de promover GPs físicos nos últimos anos. Ao redor do mundo várias outras categorias seguiram o exemplo e houve inclusive pilotos perdendo patrocínios por comportamento inadequado nas competições virtuais, casos de Daniel Abt (Fórmula E), Bubba Wallace e Kyle Larson (Nascar).

No Brasil, a Porsche Cup foi pioneira na realização de um campeonato virtual inclusive promovendo a transição de seu campeão para as pistas reais conforme dito acima. A Shell em 2020 teve seu piloto oficial de AV, movimento que foi acompanhando por outros patrocinadores. Equipes de Stock Car tiveram seus representantes oficiais de simuladores e a categoria promete há dois anos uma versão digital do campeonato, que ainda não saiu do papel.

Entre os pilotos brasileiros envolvidos com o AV, destaque para sobrenomes consagrados.

Os Fittipaldi Brothers, Pietro e Enzo, promoveram campeonatos e lançaram canal na Twitch inicialmente para streaming das corridas virtuais. A iniciativa ganhou corpo e passou a transmitir corridas reais de primeira linha, com provas das categorias de base da Indycar e eventos internacionais de Endurance. O canal hoje tem 94,3 mil seguidores.

Dudu Barrichello é outro que se destaca nesse universo. Tricampeão do IRB eSport, uma das quatro maiores ligas do mundo, o piloto da Fórmula Regional Europeia integra a equipe P1Speed e é fundador do DB Desings, serviço especializado na produção de layouts para os carros de corrida virtuais.

A nova geração das pistas já identificou e explora bem o potencial do AV. E, a julgar pelas declarações de Jean Todt (presidente da FIA) e Tomas Bach (presidente do COI) no lançamento do Olympic Virtual Series, a velha guarda também já apertou o botão de “start”.

Luis Ferrari é sócio-fundador da Ferrari Promo, agência-boutique especializada em RP no esporte a motor, e escreve mensalmente na Máquina do Esporte

publicidade