Opinião

Opinião: Até quando elas precisarão passar por isso?

por Júlia Vergueiro
A
A
Opinião: Até quando elas precisarão passar por isso?
publicidade

“Ser mãe de menina que calça chuteiras e “vai pra cima” dá um orgulho danado, mas houve dias em que depois que a fiz dormir secando suas lágrimas, chorei as minhas por sentir na pele o peso de um mundo injusto.”

O esporte é um direito social de todo cidadão, defendido pela Carta Internacional da Educação e do Esporte da UNESCO, de 1973, e assegurado pela Constituição Brasileira de 1988. Infelizmente, não é isso que vivemos na prática.

As aspas acima são de uma mãe de uma aluna nossa, de apenas 9 anos, mas poderiam ser de tantas outras famílias que ainda travam uma luta oculta e diária: sofrer as dores das suas filhas sem saber como justificar a conduta alheia. O que ela fez para merecer isso? Como posso protegê-la desse sofrimento sem desencorajá-la de fazer o que ama?

Com a autorização dessa mesma mãe, hoje compartilho aqui uma história que espero que nos ajude a entender, de uma vez por todas, a importância dos espaços seguros para a promoção da prática esportiva feminina e, consequentemente, para o desenvolvimento de meninas e mulheres em todas as esferas da sociedade. Afinal, como podemos esperar um mundo próspero, se 51% da população cresce sendo limitada apenas a oportunidades e experiências estabelecidas como adequadas à sua natureza?

Há poucas semanas, a mãe da Lô me contou em detalhes os diversos momentos em que a sua pequena gigante foi hostilizada pelos meninos da rua onde moram e com quem ela até então sempre brincou de bola. No início, eles achavam graça em ter uma menina, diferente, jogando com eles. De uns tempos para cá, ela vem se sentindo inferiorizada e desmotivada.

“Ela vinha comentando e se queixando de algumas coisas, por isso, no último sábado à tarde, eu fui na rua olhar a brincadeira deles. Eles estavam jogando um tipo de bobinho, e ela ficou de bobinha o tempo todo. Ela no meio, os meninos passando a bola, e ela não conseguindo pegar. Quando a bola descia a rua, só ela corria para buscar. E ela ficava quietinha, nunca pedia para trocar.”

Certa noite, foi aos prantos que a Lô finalmente desabafou: "mãe, eu sou muito ruim jogando futebol, eu vou parar de jogar bola, todos os meninos aqui são melhores do que eu, e eu estou cansada disso”.

Desde muito cedo, meninos são estimulados a desenvolverem diferentes habilidades importantes à prática esportiva. Esse incentivo acaba fazendo com que eles se destaquem nas brincadeiras e esportes se comparados às meninas, que não são estimuladas da mesma maneira. Pesquisas de gênero no esporte mostram que as diferenças de habilidades e de força física entre homens e mulheres não são decorrentes de razões biológicas, mas socialmente construídas. É a maneira como estimulamos ou não meninas e meninos desde a primeira infância que determina o nível de interesse, a prática e a habilidade corporal e física de ambos os sexos¹.

Espaços seguros são ferramentas fundamentais para que esse estímulo às meninas aconteça de forma recorrente e consistente, e para que as mesmas tenham para onde recorrer quando se sentirem excluídas em outros espaços. Na rua, a Lô foi exposta a um mundo que a dizia não, que a convenceu a se afastar da sua paixão. Felizmente, graças a uma família que se empenha em buscar a felicidade da sua filha apoiando-a no que ela ama, nós pudemos unir forças e convencê-la do contrário.

E o universo estava de olho nesse esforço conjunto e resolveu colaborar: colocou a pré-inauguração da Nossa Arena bem nesse momento. Eu e a professora da Lô nem tivemos que combinar. Já sabíamos o que fazer. Era a vez da Lô ter o momento dela, de ser reconhecida por toda dedicação e paixão pelo futebol. E assim ela deu o pontapé inicial nos gramados da primeira arena esportiva do Brasil dedicada ao público feminino. Desde então, para a Lô, a Nossa Arena ganhou um segundo nome: “o meu estádio”.

No dia seguinte, nas redes sociais, a mãe dessa peladeirinha nos emocionou com um novo relato, agora mais aliviado e esperançoso: “De uns tempos para cá, temos enfrentado algumas situações desafiadoras para uma menina cujo único desejo é ser criança, brincar e jogar bola. Experimentamos o sabor amargo do bullying e até do machismo. Mas aí, neste mesmo mundo, a gente encontra mulheres que ajudam essas pequenas a se sentirem fortes e batalharem por seus espaços. E hoje choramos também, mas foi de emoção e alegria”.

Se, por um lado, o esporte reforça o aspecto de dominação masculina, por outro, ele pode ser visto como um subsídio para a emancipação das meninas e mulheres na sociedade. Um de seus desafios é justamente empoderar meninas e jovens mulheres para se sentirem mais confiantes e habilidosas ao usarem seus corpos, em vez de constrangidas a cumprir com os padrões estabelecidos. Que possamos usar o esporte em prol de uma sociedade mais justa e próspera.

¹ ²Guia de Atividades “Uma Vitória Leva à Outra” – ONU Mulheres.

Júlia Vergueiro é fundadora do Nossa Arena e escreve mensalmente na Máquina do Esporte

publicidade