Opinião

Opinião: A Ferrari 2021 pode virar um Lada 1984

por Ricardo Fort, especial para a Máquina do Esporte
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Superliga europeia é anunciada, mas quais os reflexos disso para o mercado?
Divulgação
Superliga europeia é anunciada, mas quais os reflexos disso para o mercado?
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As últimas 48 horas foram das mais agitadas para os que trabalham com o futebol. Depois de muita especulação, 12 dos grandes clubes da Europa finalmente anunciaram a sua rebelião contra a FIFA, UEFA e as Federações Nacionais através da criação da Superliga.

Há muitas teorias disponíveis sobre o que acontecerá com os clubes, com as ligas, com as federações e com os jogadores. Alguns veem a oportunidade como a salvação do futebol, muitos outros como o fim dele. Um lado acusa o outro de ser desonesto, usa xingamentos que prefiro não repetir e diz que vai pegar o outro lá fora depois da aula.

Eu não vou entrar no mérito de quem tem razão. Também prefiro deixar as análises jurídicas para os advogados do esporte, as sociais para os sociólogos e as esportivas para a imprensa. Nessa revolução que se desenrola tuíte a tuíte, a parte que mais me interessa é mesmo o que está acontecendo e vai acontecer com os patrocinadores e parceiros de mídia.

Nesse momento, enquanto os torcedores tentam entender o que pode mudar para eles, os executivos de mídia e das empresas patrocinadoras, os setores da economia que sustentam o futebol global, estão muito preocupados. Afinal, eles compraram uma Ferrari 2021 e correm o risco de receber um Lada 1984.

Nos escritórios de empresas como a Heineken e a PepsiCo, patrocinadoras da Champions League, ou dos patrocinadores das equipes, os executivos de patrocínios estão dedicados a três tarefas urgentes:

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A primeira e mais crítica deve ter tomado uma boa parte do domingo e da segunda-feira: reuniões com seus departamentos jurídicos para rever contratos e entender quais são as opções caso o pior aconteça. O que aconteceria caso precisem quebrar seus contratos? Há como fazer isso evitando pagar o que devem e as eventuais batalhas judiciais?

No pouco tempo que sobrou, tiveram reuniões com suas equipes de comunicação para alinhar a posição pública que devem tomar nos próximos dias. Se patrocinam os clubes, devem apoiá-los ou repudiar a decisão? E se patrocinam (ou detém os direitos de transmissão) uma das ligas nacionais ou a UEFA, o que dizer? Toda a comunicação deve ser previamente discutida com os parceiros, para evitar abalar as relações comerciais.

Finalmente, eles precisam informar os seus executivos. Estes briefings são muito importantes porque serão usados para informar os CEOs, executivos-chave e os respectivos “Board of Directors”.

Executivos de patrocínios e TV podem estar fazendo o mesmo dever de casa, mas os problemas que cada um terá que resolver são bem diferentes.

Do lado da TV, os que detêm os direitos de transmissão da Premier League querem saber se Chelsea, Tottenham, Arsenal, Manchester City, Manchester United e Liverpool jogarão ou não no campeonato. O mesmo acontece com os Italianos. Será que a Lega Serie A banirá a Juventus, o Milan e a Inter? E como a La Liga sobreviverá sem Real Madrid, Barcelona e Atlético?

Como a venda dos direitos de transmissão ocorre por região ou país, esta preocupação está na cabeça de empresas ao redor do mundo. Todas devem estar ligando agora para seus contatos comerciais para saber o que acontecerá.

Para quem pagou centenas de milhões de euros pelos direitos, estas respostas são fundamentais para decidir o que fazer.

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Outro grupo importante é o dos patrocinadores dos 12 clubes fundadores da Liga.

Estes estão querendo saber quantas partidas a menos por ano jogarão. Sem participar das ligas nacionais, a exposição das marcas e as oportunidades de ativação diminuirão muito. Mas o que deve realmente estar deixando todos de cabelos de pé é o risco para a suas reputações.

Estes clubes, ricos e poderosos, ofenderam muita gente com a sua atitude e isso trará repercussões negativas para todos associados com eles. Que marca quererá ser vista apoiando um “bully” do futebol?

Para quem pagou milhões de euros pelos direitos de patrocinar um destes clubes, estas respostas são fundamentais para decidir o que fazer.

Finalmente há o grupo de patrocinadores dos clubes que não fazem parte da Superliga.

Menores e menos influentes, esses clubes dependem muito daquelas poucas partidas contra os “grandes” para justificar a sua visibilidade na temporada. Sem jogar contra os seis rebeldes ingleses, os três super-italianos e os três mega-espanhóis, os outros times em cada uma das ligas terão muitas dificuldades para garantir as suas receitas de patrocinadores. Eles poderão ser punidos nos patrocínios e nas menores receitas de televisão. Esses 48 times - 14 ingleses, 17 italianos e 17 espanhóis - devem estar muito preocupados.

Para quem pagou milhões de euros pelos direitos de patrocinar um destes clubes, estas respostas são fundamentais para decidir o que fazer.

Os próximos dias serão interessantes para todos os envolvidos e para nós, torcedores, que só queremos nos divertir um pouco assistindo uma grande partida de futebol.

Ricardo Fort é fundador da Sport by Fort Consulting e escreve mensalmente na Máquina do Esporte

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