Opinião

Opinião: A diversidade na formação integral de futebolistas

por Ana Lorena Marche, especial para a Máquina do Esporte
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Em março, FPF realizou programa sobre liderança feminina no futebol
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Em março, FPF realizou programa sobre liderança feminina no futebol
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Não é de hoje que procuramos a fórmula mágica da melhor maneira para formar jogadores de futebol, principalmente quando falamos do esporte praticado pelos homens, onde o dinheiro está completamente envolvido. Existem diversos estudos que procuram entender como desenvolver o jogador de forma integral, ou seja, nas mais diversas competências, cognitivas, técnicas, tácticas, psicológicas, físicas, entre outras. As pesquisas a respeito da formação são fundamentais, pois o processo como um todo é longo e doloroso.

Muitos meninos começam desde cedo a prática formal, passando por diversos processos de seleção, campeonatos, viagens, treinos, que muitas vezes acontecem longe de casa e da família, todos em busca do sonho de ser jogador de futebol e mudar de vida. Além disso, o processo é quase uma fábrica de frustações, já que muitos estudos mostram números assustadores, como “a cada três mil meninos das categorias de base, apenas um consegue chegar ao alto rendimento”. Ainda estamos longe desses números no futebol praticado por mulheres, mas a tendencia é que, cada vez mais, o número de meninas praticantes e o funil aumentem muito nos próximos anos.

O processo é muito ingrato, por isso que existe um fator fundamental na formação integral, que precisa ser pensado e trabalhado, que é o social, muitas vezes esquecido. Quando falamos em formação integral, estamos falando em formar melhores pessoas para sociedade, melhores cidadãos, não apenas focarmos nos aspectos relacionados ao jogo, já que a grande maioria não chegará ao topo. Mas será que realmente estamos pensando neste aspecto ou estamos focados apenas na formação integral, pois vimos que ela também é muito importante para termos melhores jogadores?

A diferença é sutil e ela está no foco que vamos colocar dentro do processo. Muitas vezes trabalhamos diferentes valências, como cognitivas, psicológicas, educacionais, mas estamos pensando como isso o tornará melhor jogador e não melhor cidadão. A consequência de ser melhor para sociedade não é absoluta, pois o foco é outro. Não que esses aspectos não sejam importantes, mas acabam faltando alguns elementos fundamentais, já que não é esse o foco principal. Formar melhores cidadãos passa pelo ponto de falarmos de pautas importantes que vivemos em nossa sociedade, como a diversidade, respeito às diferenças, violência contra a mulher, intolerância religiosa, homofobia, pautas raciais, entre muitas outras.

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Outro ponto importante, como queremos falar de diversidade se, segundo o relatório da FIFA, de 2018, as entidades membros possuem apenas 28% de mulheres em cargos administrativos, imagina em outras áreas, como a técnica? Ou seja, não temos mulheres dentro de vários processos, principalmente na formação dos meninos. Questão de gênero é apenas um exemplo da falta de diversidade, existem outras pautas importantes que também não são representadas no universo do futebol masculino.

Contudo, quando vemos o futebol praticado por mulheres, vemos um ambiente muito mais diverso. Mesmo que não tenhamos igualdade de gênero ainda, o número de mulheres nas comissões e cargos diretivos com certeza é maior com relação ao futebol masculino. Além disso, outras pautas são tratadas dentro do dia a dia com muito mais naturalidade. Assuntos muitas vezes tratados como “tabus” dentro de um ambiente masculino, no universo do futebol feminino já são discutidos há mais tempo. Isso não quer dizer que não tenhamos problemas, mas nossa formação de atletas é muito mais plural, pois o ambiente é diverso, com homens e mulheres trabalhando lado a lado, construindo e servindo de espelho para muitas meninas que estão dentro do processo de formação. Sem contar que muitas meninas praticam futebol com meninos, outro ganho importante para ambos... Mas esse é um assunto para uma próxima coluna!

Segundo o relatório Diversity Matters (“Diversidade Importa”), da consultoria McKinsey & Company, realizado na América Latina, além de as empresas que abraçam a diversidade apresentarem resultados financeiros melhores, os funcionários delas apresentaram probabilidade 80% maior de concordarem com seus líderes, promovendo confiança e diálogo aberto. Além disso, há uma probabilidade 73% maior de relatar uma cultura de liderança em prol do trabalho em equipe, que afeta positivamente a forma como as pessoas se comportam.

Olhando esses dados e vendo o que já está acontecendo com o futebol, será que não temos muito a crescer e aprender com a diversidade que existe dentro do futebol feminino? Podemos criar melhores líderes, grupos que trabalham em conjunto em prol de um objetivo maior. Ser melhor jogador será consequência disso, já que essas são características essenciais de um grande atleta.

Ana Lorena Marche é coordenadora de futebol feminino da FPF e escreve mensalmente na Máquina do Esporte

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