Opinião

Futebol feminino tem de crescer sem vício

por Erich Beting
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Nesta semana celebramos os 20 anos de um feito histórico, que foi a conquista da liderança do ranking mundial do tênis por Gustavo Kuerten. Em 2009, numa entrevista, Guga me disse uma frase que ficou marcada: "O Brasil não estava pronto para ter o número 1 do mundo".

Era dessa forma, sem qualquer rancor, que ele colocava o dedo na ferida para explicar o porquê de não termos conseguido aproveitar a "Era Guga". O problema não foi ganância de dirigentes, falta de patrocínio ou mídia. Foi, pura e simplesmente, falta de capacitação de gestores para aproveitar o momento.

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Nesta quarta-feira, no terceiro dia do Máquina Talks, Alberto Simões, diretor de futebol feminino do Palmeiras, disse algo sobre a modalidade que na hora me remeteu ao que Guga diagnosticou após sua aposentadoria.


"O futebol feminino não está preparado para receber tanto investimento".


A visão de Alberto é extremamente realista, mostra que temos gestores mais capacitados hoje do que há 20 anos e serve de excelente alerta para a modalidade.

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Futebol feminino precisa de visão de longo prazo de patrocinadores e gestores, algo raro em nossa história

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Não adianta marcas chegarem no es-porte com milhões em dinheiro para ter o retorno no curto prazo. Desde segunda-feira, quando iniciamos nossa "Semana do Futebol Feminino", que todos os palestrantes tocaram nesse ponto. É preciso de tempo para que o investimento colha seus frutos. Foi essa falta de visão de que temos um longo caminho a ser percorrido que afogou o tênis brasileiro.

O futebol feminino precisa crescer sem os vícios que contaminam esporte que aparece de uma hora para a outra na mídia e muitas vezes o transformam num negócio de ouro no curto prazo, mas sem perspectiva no futuro.

Hoje, não há estrutura para que as mulheres recebam um grande aporte de dinheiro. As competições estão começando a se estruturar, a mídia tem se aproximado mais da modalidade, mas ainda falta criar uma cultura para os fãs, que vão se acostumar a acompanhar times e atletas e, principalmente, praticar o esporte dentro do seu dia a dia, criando aí sim uma base para o futuro.

Como se vê, o caminho é longo. O lado bom é que, diferentemente do que acontece na maioria dos esportes, os patrocinadores entenderam que o processo de construção leva tempo. Essa visão de longo prazo é o que vai dar ao futebol feminino uma boa perspectiva. O primeiro passo é crescer sem vícios, principalmente aqueles que contaminam hoje o futebol masculino.

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