Futebol

EXCLUSIVO: Os planos da OneFootball no Brasil

por Erich Beting
A
A
Lucas von Cranach fundou em 2008 a plataforma OneFootball
Divulgação
Lucas von Cranach fundou em 2008 a plataforma OneFootball
publicidade

O fim de 2020 e começo de 2021 foram agitados nos escritórios da OneFootball, em Berlim. No dia 15 de dezembro, a plataforma de conteúdo sobre futebol anunciou a compra da Dugout, empresa fundada por dez clubes e que produz conteúdo em vídeo com bastidores de times e entidades esportivas.

O início da fusão das duas empresas foi seguido de um anúncio, em 11 de março, de que a OneFootball fechava a primeira parceria com uma confederação esportiva. A CBF passou desde então a inserir conteúdo da seleção brasileira e das competições do país dentro da plataforma.

No dia 24, foi a vez de um novo e bombástico anúncio. Tottenham, Borussia Dortmund e a Federação Alemã de Futebol (DFB) decidiram investir na OneFootball e se tornaram acionistas da empresa, juntando-se aos clubes-fundadores da Dugout.

Por conta de todos esses movimentos, Lucas von Cranach pediu para adiar a conversa que teria com a Máquina do Esporte no meio de março. A primeira entrevista do fundador da OneFootball para um veículo de negócios no Brasil foi acontecer apenas na Sexta-Feira da Páscoa (2 de abril), em meio a um raro momento de descanso do executivo com a família. Durante meia hora, Lucas von Cranach abriu um pouco dos planos da OneFootball, comentou sobre o mercado brasileiro de mídia, o comportamento do torcedor e disse que o futebol passa, hoje, por uma transformação similar àquela que a indústria da música viveu há uma década, quando o Napster havia derrubado o tradicional – e caro – modelo de consumo da produção artística.

Leia a seguir a entrevista com Lucas von Cranach:

publicidade

Máquina do Esporte: O que é a OneFootball e qual a importância do Brasil para a empresa?

Lucas von Cranach: OneFootball é uma plataforma de mídia que pode ser comparada com o Twitter, mas apenas para o futebol. Mas tem algumas diferenças. A primeira: nós somos uma plataforma fechada, nós só permitimos a entrada de fontes que são relevantes para os consumidores que têm uma conta na OneFootball. A gente não é uma plataforma aberta. Com isso, a gente resolve vários problemas que vemos em grandes empresas como Facebook, Twitter e YouTube têm. Não temos nenhuma pirataria, não temos conteúdo gerado pelo usuário, não temos nenhuma moderação, racismo. Isso é algo que a gente aprecia e valoriza. Não apenas nossos usuários, mas nossos parceiros. Nós temos dez dos maiores clubes do mundo em nosso corpo de associados. Para eles é muito importante isso. É importante que o ambiente seja seguro para a marca, que não haja pirataria do conteúdo, que não exista conteúdo que traga problemas legais, como o racismo ou ofensas, como acontece hoje nas grandes plataformas.

Tendo tudo isso em mente, queremos que nossa plataforma ofereça a maior experiência para o fã de futebol e nós temos um approach global-local. Nós temos, por exemplo, muito conteúdo em português para o fã brasileiro, que está interessado nesse tipo de informação. O Brasil é nosso maior mercado em termos de base de fãs. Temos 85 milhões de usuários mensalmente no mundo, e o Brasil é nosso maior mercado em usuários. O que temos é uma plataforma de mídia que engaja e mantém a retenção do cliente. E isso é como nós podemos dar a esses usuários a melhor experiência, e agora nós temos entrado com o elemento do OTT. Nós temos os direitos exclusivos da Bundesliga e da Ligue 1 e oferecemos de graça para os torcedores. Não apenas os jogos, mas também os melhores momentos.

Isso é importante, porque queremos que o futebol seja acessível para o torcedor de um jeito fácil e barato.

ME: A Eleven Sports anunciou que lançará uma plataforma global de transmissão. Eles são o maior concorrente de vocês?

LvC: Não acho que eles sejam um competidor. Somos parceiros. Estamos nos unindo a eles e ao MyCujoo em vários direitos. Nós somos uma solução para os detentores de direitos. A razão para transmitirmos a Bundesliga na América do Sul e a Ligue 1 no Brasil, além de obviamente ser um movimento estratégico em nosso maior mercado, foi uma forma de fazer uma parceria com os donos dos direitos para ajudá-los depois de não terem encontrado um parceiro ideal de transmissão.

ME: O DAZN chegou ao Brasil com a proposta de vender o conteúdo diretamente ao fã e fracassou. Você acredita que é preciso oferecer gratuitamente o conteúdo no streaming?

LvC: Não acredito que o torcedor exija o conteúdo de graça. O desafio é saber como ajustar o produto para a demanda do mercado e entender o valor que é cobrado pelos direitos. Esse é o desafio. E é algo muito similar à indústria da música. Há 20, 15 anos atrás, a indústria da música tinha um desafio de tornar a música acessível para o público. Ela era muito cara! Todo mundo foi para a pirataria com o Napster, até que o Spotify veio com uma proposta em que a pessoa pagava o preço de um CD para ter todas as músicas possíveis com uma experiência incrível. E isso acabou com a pirataria.

Eu acredito que nós temos de olhar para o futebol da mesma forma. Os ouvintes são fãs da música como os torcedores são fãs do futebol. E isso é onde temos de saber como entregar o produto adequadamente para o mercado. Eu acredito que tem várias camadas para isso acontecer. Uma delas logicamente é o conteúdo gratuito, mas aí tem a parte paga, que não pode vir em forma de pacote, mas fragmentada. Você torce para o Palmeiras, você não quer pagar um pacote de 50 dólares para ter todo o conteúdo sobre futebol. Você quer o Palmeiras. Talvez você queira ver alguns jogos do Paris Saint-Germain por causa do Neymar, ou alguns jogos da Champions League, mas você precisa estar numa posição de selecionar o conteúdo que quer assistir. Não estou dizendo que terei esse tipo de conteúdo em todo mercado que atuamos, porque isso é muito difícil de conseguir. Mas nós queremos ajudar os detentores e donos de direitos a, via OneFootball, fazer ofertas desempacotadas de direitos para os torcedores. Acho que o DAZN, e não quero falar mal deles, mas o desafio deles foi entrar no mercado comprando direitos e não apenas eles, mas diversos detentores de direitos, achar que, só porque eles tinham os direitos, os torcedores iam querer estar lá e consumir. Você precisa muito mais do que direitos ou estar na cauda longa do negócio. Pensando que eu sou novo no mercado, ninguém conhece minha marca, vou comprar diversos direitos e o usuário virá imediatamente é muito difícil. O DAZN é muito bem-sucedido em vários mercados, o Brasil não foi um fracasso, mas talvez tenha sido um teste. Eu acredito, e acredito que essa seja uma razão para nós estarmos bem posicionados atualmente, que a plataforma de mídia é uma camada de entrada. Você chega para nosso produto não pelo evento ao vivo, mas porque nós servimos você com conteúdo em português sobre o seu time, e você pode acompanhar tudo sobre ele. Temos análise pré-jogo, clipes com melhores momentos, conteúdo em vídeo, resultados ao vivo... E aí você pode se interessar por um jogo do Paris Saint-Germain, e aí você pode acompanhá-lo também, nós temos a CBF, com quem fechamos um acordo recentemente... Então literalmente conseguimos servi-lo com tudo o que você quer, e isso é porque temos grande engajamento com o torcedor diariamente. Aí temos a possibilidade, porque nosso consumidor volta de 50 a 60 vezes mensalmente ao nosso aplicativo, de oferecer para assistir a um Dortmund x Bayern gratuitamente. Por isso acho que o approach precisa ser na cauda longa.

publicidade

ME: Foi por isso também que vocês compraram no começo do ano a Dugout? Para oferecer mais conteúdo em vídeo?

LvC: É mais do que isso. Um dos motivos, logicamente, é que agora os clubes (fundadores da Dugout) são também nossos acionistas. E não faríamos o negócio se eles não fizessem parte de nossa estratégia de longo prazo. Nós queremos que eles estejam 100% comprometidos com o que queremos fazer com eles. Além disso, com a aquisição, tivemos acesso não apenas aos dez clubes que são acionistas, mas também a outros 125 clubes, ligas e federações que também servem conteúdo exclusivo ao Dugout. Então temos mensalmente 4500 vídeos exclusivos desses clubes, ligas e federações que podemos oferecer a nosso ecossistema, e eles podem receber por isso, além de ter acesso a dados e aos consumidores. E isso é tremendamente importante para nós. Para nós foi importante mostrar para outros clubes e para todo o ecossistema que os clubes estão conosco, tanto que foi muito bom termos recentemente anunciado que Tottenham, Borussia Dortmund e DFB são novos acionistas da OneFootball, validando nosso case. Eles investiram dinheiro em nosso último valuation para estarem no mesmo patamar que os outros dez acionistas.

ME: Quais os planos para o Brasil? Não temos aqui os clubes num mesmo nível de maturidade para entenderem a importância de se associarem a um projeto desses, mas como os clubes podem ajudar a crescer o negócio da OneFootball no país?

LvC: Com certeza o timing não é apropriado para isso. Mas com o Palmeiras temos uma boa relação, com a CBF acabamos de assinar um contrato, com o Fluminense temos ótimo relacionamento. Temos ainda um time de funcionários no Brasil, uma equipe em Berlim de brasileiros que trabalham com foco no mercado brasileiro, então eles estabelecem a relação com os clubes e entidades esportivas. Claro que o que planejamos para o Brasil é entregar ao torcedor a melhor e mais completa experiência para ele consumir o seu time e entidades que ele goste de seguir. Ele pode seguir a Juventus, o PSG, o Liverpool, tanto faz... Queremos servir o torcedor não apenas com o time em sua língua nativa, mas em português.

ME: Vocês planejam comprar outras empresas de mídia, como fizeram com Dugout?

LvC: Eu nunca vou dizer não a isso. Mas não estamos procurando isso. Na nossa história, a Dugout foi a segunda empresa que compramos. A primeira foi uma empresa de tecnologia, num negócio em que eles lucraram com o que entregaram para nós. Nós queremos que todo parceiro, seja ele uma empresa de tecnologia, de mídia, um clube, uma liga ou detentor de direito, tenha lucro ao distribuir seu conteúdo dentro da OneFootball. É por isso que todos se beneficiam e todos lucram com isso. Se no curto, médio ou longo prazo nós identificarmos alvos que sejam interessantes para nós e possam acelerar nosso negócio, então está bem, podemos comprá-los. Mas não é algo que esteja agora em nossos planos.

publicidade

ME: De que forma vocês pretendem competir no mercado brasileiro? Vocês querem ser a casa do futebol europeu por aqui, ou o maior parceiro dos clubes?

LvC: Sabe, Erich. Nós não queremos competir. Globo e UOL são parceiros, não competidores. Eles deveriam nos ver como parceiros, não como concorrentes. Claro que, no final, é uma questão de onde estão os anunciantes, mas nós temos identificado caminhos para trabalhar com todas essas partes e servirmos como parceiros, não como concorrentes. Como disse, enquanto todos os parceiros receberem receita e tiverem acesso aos dados e aos dados dos consumidores, então é uma parceria, porque você está numa situação ganha-ganha. Há alguns anos, quando entramos no mercado brasileiro, nós não éramos considerados pelas empresas, ninguém nos olhava detalhadamente. Mas nós conquistamos o coração dos brasileiros dando a eles um produto incrível. Não entramos com dinheiro para ganhar o mercado, nós estudamos o mercado e entendemos a necessidade do usuário e, então, entregamos o melhor produto. O que recebemos de volta foi que, em 2018, fomos eleito o melhor aplicativo do Brasil no Google. Você não pode pagar por esse feedback. Isso prova que nosso approach no mercado estava certo. É algo que demora, leva um tempo.

Nós conseguimos os direitos da Bundesliga e da Ligue 1 pouco antes de os campeonatos começarem, e os primeiros jogos tivemos de entregar com o conteúdo em inglês, porque não tínhamos nos preparado para isso. E o público ficou bravo. Eu não entendo isso, porque estávamos dando o conteúdo de graça. Foi preciso umas cinco ou seis rodadas para que a gente começasse a ter a transmissão com os melhores comentaristas e narradores em português. Essa era a expectativa do mercado. Essa era uma oportunidade para nós em parceria com a Bundesliga e a Ligue 1 para o mercado brasileiro.

ME: Como você acredita que o mercado de mídia vai mudar nos próximos anos?

LvC: Os brasileiros são loucos por mídias sociais. Isso é algo inacreditável. Não acho que o mercado vá mudar muito nos próximos anos. Acho que vamos continuar a ver os mesmos players, mas eles terão de se adaptar aos usuários e aos desejos desses usuários. Eu acredito, aliás, que isso é algo que ficou perdido nos últimos 20 anos, especialmente depois que chegou a internet. A mídia continuou oferecendo, mas não escutando o consumidor. O poder do consumidor é o maior poder da internet. Eles consomem o que querem, não o que é forçado a consumir. Isso é diferente de 30, 40 anos, quando havia no máximo dez empresas de mídia, e eles que montavam a grade do que seria consumido. Não tinha mais o que consumir. Hoje é vídeo sob demanda. Netflix e Spotify apenas oferecem a plataforma, o consumidor é que decide o que vai ver ou ouvir. Isso que você precisa considerar, colocar o usuário no centro da empresa, da sua estratégia. Será que esses players estarão prontos para ouvir o consumidor? Quem seguir essa evolução, vai sair-se vencedor. Eu não acredito que a TV linear vá acabar. Muita gente ainda não quer decidir o que vai consumir, mas acredito que terá uma mudança, com empresas mais jovens, ou com aquelas que mudaram sua estratégia e souberam colocar o consumidor no centro da estratégia.

ME: Para a OneFootball, especificamente no mercado brasileiro, o que você acredita que acontecerá nos próximos anos?

LvC: Em alguns anos, 50% de todos os fãs de futebol no Brasil vão usar a OneFootball. Esse é o plano. Em três a cinco anos. Atualmente 11 milhões de fãs já usam a OneFootball. Nós estamos focando no torcedor jovem, que será o consumidor do futuro. Se eu disser que ele pode assistir ao jogo do PSG com o Neymar de graça, e nós estamos melhorando a experiência dele, ele se tornará um consumidor que pagará por conteúdo mais para a frente, com outros direitos, assim que tivermos mais eventos exclusivos com outros parceiros. Não queremos perder o torcedor de futebol. Se nós continuarmos a colocar o futebol atrás de barreiras pagas e fazer com que seja difícil consumir, não vamos desenvolver o futebol a partir das novas gerações. Nós queremos evitar isso.

publicidade

CBAt fecha com Prevent Senior até 2025