Futebol

Entrevista: Frederico Nantes, diretor de competições da Conmebol

por Erich Beting
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Times de Palmeiras e Santos perfilados antes de início da final da Conmebol Libertadores de 2020
Cesar Greco / Palmeiras
Times de Palmeiras e Santos perfilados antes de início da final da Conmebol Libertadores de 2020
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Em 30 de janeiro de 2021, a Conmebol realizou, pela segunda vez em sua história, uma final única da Conmebol Libertadores. Mais uma vez, o jogo decisivo da principal competição sul-americana foi cercado de peculiaridades extra-campo que mudaram a organização do evento. Se, em 2019, quando Flamengo e River Plate se enfrentaram, o problema foi a obrigatoriedade de mudar a sede do jogo de Santiago, no Chile, para Lima, no Peru, dessa vez foi a pandemia que forçou a entidade a montar um esquema especial para a partida.

Antes de a bola rolar para Palmeiras 1x0 Santos, Frederico Nantes, diretor de competições de clubes da Conmebol, concedeu entrevista para a Máquina do Esporte. Nela, falou sobre a organização do jogo único e disse quais os próximos desafios que a entidade tem para a sua principal competição. Leia a seguir a entrevista:

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Máquina do Esporte: Como a Conmebol se preparou para a final no Rio?

Frederico Nantes: A Conmebol trabalhou na organização da final da Libertadores há aproximadamente onze meses. Todo esse trabalho foi feito com uma equipe desde Assunção até as autoridades do Rio de Janeiro, em plena coordenação com todas as pessoas envolvidas. Logicamente que nós tivemos a questão da pandemia, que pegou todo mundo de surpresa, e todas as coordenações em relação às medidas sanitárias começaram a ser tomadas e organizadas a partir do momento que nós começamos a ter mais conhecimento sobre a doença. Nos últimos meses, se intensificaram as coordenações e as organizações da partida final, mas o trabalho foi conduzido de uma maneira muito coordenada com todas as autoridades e com todos os cuidados, especialmente na área da saúde, que foi a preocupação maior da Conmebol para a realização dessa partida final da Conmebol Libertadores 2020.

ME: Quais os benefícios de uma final em jogo único?

FN: A final única é um projeto que foi pensado e elaborado pela Conmebol com vários objetivos. Na verdade, há uma questão de justiça esportiva. Numa avaliação técnica nossa, se verificou que havia uma vantagem muito grande para quem jogava o segundo jogo na condição de local. Então uma das razões técnicas de um jogo único era justamente corrigir essa questão e fazer com que a decisão da competição fosse mais justa, numa partida única.

Logicamente, existem outras questões, especialmente de experiência do consumidor, que são as pessoas que participam da final da competição, em todas as partes envolvidas. Não só o público que assiste em casa, mas o que vai ao jogo. Também há uma experiencia única aos principais atores das finais, que são os clubes e os jogadores. Porque a final é muito mais que um jogo, é uma celebração, um evento de uma semana. Nós paramos uma cidade, ativamos uma cidade com uma série de eventos. Não podemos fazer toda a programação completa neste ano por conta da pandemia, mas recordo, por exemplo, que nós fizemos em 2019 em Lima a embaixada do torcedor, com várias ativações. Então a ideia é fazer com que as pessoas que participam dessa final tenham uma experiencia única, não só quando participam, mas também na transmissão da televisão, e os times que participam da final com um nível de serviço totalmente diferente, com o mesmo nível das principais competições internacionais, como a Uefa. Por isso a organização da final passou a ser uma responsabilidade da Conmebol para que a gente possa fazer dessa forma.

ME: Em dois anos, é possível dizer que a experiência de uma partida única para a final já caiu no gosto do torcedor sul-americano?

FN: Eu acredito que sim. Acho que tivemos experiências bem sucedidas, não só da Libertadores, mas também da Copa Sul-Americano. Na Sul-Americana, o feedback que tivemos de todas as partes, não só de público, mas de patrocinadores e televisões, foi extremamente positivo. Eu creio que nós estamos no caminho que esperávamos. Os resultados são positivos. Os números de audiência, os números de pessoas que participaram, que viajaram nas partidas que puderam ter público, os números de receita para a cidade, para o país, foram impressionantes no ano passado. Este ano, claro, tivemos a questão da pandemia, mas o número de países que nós transmitimos o jogo também é uma coisa impressionante. A final foi transmitida para 191 países. Então acho que o resultado é bastante satisfatório, e a emoção de um jogo final eu entendo que já caiu, sim, no gosto do torcedor sul-americano.

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ME: De que forma a Libertadores pode se transformar ainda mais num produto para torcedores, patrocinadores e mídia?

FN: Eu entendo que, nos últimos três anos, a Libertadores mudou completamente o ‘approach’ com esses grupos de pessoas. É um produto completamente diferente, muito mais atrativo, e a Conmebol vem trabalhando incansavelmente para que se torne cada vez mais atrativo, com ativações diferentes, com participação dos torcedores, com uma interação muito maior. Eu acredito que nós estejamos em um caminho bastante positivo, bastante correto nesse sentido. Mas é uma mudança de cultura muito grande em relação ao que a Libertadores era há muito pouco tempo. Claro que isso ainda vai demorar um tempo para chegar aonde nós desejamos dentro da Conmebol. Mas o importante é termos muito claro qual é o nível que queremos na competição. Acho que a organização já está num patamar completamente diferente. A exposição da competição é completamente diferente.  A produção para a televisão, o atendimento à imprensa, tudo é completamente diferente do que era três anos atrás. Isso tudo é fruto de um trabalho que nós temos feito incansavelmente dentro na Conmebol.  Ativação em redes sociais, todo nosso trabalho nas redes sociais. Isso não existia há 3 anos. A gente segue nessa direção para melhorar cada vez mais o nosso produto.

ME: Qual o próximo desafio para a Conmebol na organização do torneio?

FN: Nosso desafio com a organização da Libertadores é diário. Sempre buscamos pensar o que podemos fazer de diferente na organização da competição. É uma competição que se realiza em dez países que têm realidades totalmente distintas. Um dos maiores desafios é justamente diminuir as diferenças que existem entre esses países, e tornar mais uniforme toda a organização dos jogos, especialmente em termos de infraestrutura. Esse é um trabalho que nós estamos realizando há dois anos e meio, mas ainda vai demorar um tempo pela diferença que existe entre os países. Temos trabalhado isso bastante com as associações membros, mas ainda vai levar um tempinho para chegar aonde nós queremos.

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