Dias depois de confirmar seu retorno à primeira divisão do Campeonato Brasileiro e o título da Série B, o Vasco anunciou no início de dezembro um projeto ousado para a próxima temporada. Após concorrência, o clube escolheu a consultoria Insight para conduzir um processo de reestruturação de gestão na equipe.

Fundada em 2000, a Insight reúne executivos oriundos de outras empresas do ramo e já teve experiências em diferentes segmentos. Agora, empolgada com as perspectivas que a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 oferecem, resolveu voltar sua atenção ao esporte.

?Queremos desenvolver um trabalho profissional no segmento, considerando a vitória do Brasil nas concorrências pela Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Esses eventos criarão uma demanda muito grande e uma exigência por profissionalização e eficiência. Isso vale para clubes, ferramentas, processos e pessoas?, disse Sérgio Magacho, sócio-diretor da Insight, em entrevista exclusiva à Máquina do Esporte

Egresso de consultorias de grande porte, Magacho cuida de gestão de empreendimentos e tecnologia da informação na Insight. Nesta semana, acrescentou à lista de funções a atuação como porta-voz do acordo com o Vasco.

Durante os próximos meses, a Insight fará um mapeamento de todos os processos do clube, buscará comparações com outros modelos e montará uma sugestão de modelo de gestão para o futuro. Tudo isso em conjunto com um plano de capacitação para os dirigentes, que receberão informações e terão a missão de dar sequência à iniciativa. Ao menos no início, a parceria mostra que a consultoria não é a única preocupada com o futuro.

Leia a seguir a íntegra da entrevista:

Máquina do Esporte: A Insight já prestou consultoria a empresas de diferentes segmentos. Por que vocês escolheram o esporte agora?

Sérgio Magacho: A Insight tem experiência bastante ampla com empresas de diferentes portes. Trabalhamos com grandes companhias, companhias médias e companhias pequenas, familiares, com um estilo de gestão extremamente peculiar. Em cada caso, a geração de resultados passa por uma série de processos diferentes. Os clubes esportivos, especialmente de futebol, têm características muito similares a esse tipo de empresa de família. Enxergamos uma necessidade de evolução aí, ainda mais por se tratar de um ambiente complexo e difícil de navegar.

Em segundo lugar, a Insight já vinha fazendo pesquisas e trabalhos sobre o setor esportivo. Queremos desenvolver um trabalho profissional no segmento, considerando a vitória do Brasil nas concorrências pela Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Esses eventos criarão uma demanda muito grande e uma exigência por profissionalização e eficiência. Isso vale para clubes, ferramentas, processos e pessoas.

ME: Como funciona uma consultoria de gestão a um clube?

SM: Temos um projeto realizado em grandes fases, e cada uma delas possui um arcabouço de metodologias. A primeira fase é o mapeamento, período em que fazemos um diagnóstico detalhado do clube, sua situação organizacional, a estrutura de gestão, os processos e tudo relacionado à administração de contratos: é importante sabermos o que se compra e como se compra, vermos contas a pagar, acompanharmos todos os processos relativos à administração. Também mapeamos os processos diretamente ligados ao futebol. Então vamos pegar referências no mercado, em projetos anteriores, até para evitar que nós reinventemos a roda. Buscamos situações no banco de dados da Insight, que nos apresenta soluções práticas para vários projetos. Vemos o que pode ter aderência e sugerimos a implementação. Evidentemente, consideramos as peculiaridades do ambiente. Afinal, nem tudo que funciona em uma empresa serve também para um clube. Procuramos ainda algumas referências internacionais. Pesquisamos como os clubes internacionais estão estruturados, e esperamos identificar também no Brasil algumas situações para trocarmos experiências.

A segunda etapa do processo é identificar problemas, ver quais são as principais necessidades de melhoria. Passamos a pensar no futuro. Precisamos projetar estrutura, pessoas, processos, recursos, informação... Talvez o clube precise de um novo modelo de processo, ou podemos recomendar tecnologias, mas considerando a realidade orçamentária. Esse é um ponto interessante: não montamos o modelo ideal, mas o que se justifica e se adéqua ao custo-benefício.

Com essas informações, passamos para a implantação. Isso é feito em etapas, separando ações de curto e médio prazo. Já começamos a colocar em prática desde o início o que não demandar alteração estrutural, mas nesse período a coisa fica mais clara. Para finalizar, pensamos em um novo posicionamento estratégico. Precisamos ver o que o Vasco pensa, a estratégia de atuação, como ele enxerga o posicionamento. Fazemos reuniões de atuação com os principais executivos, e então desenvolvemos um plano de ação ajustado à visão estratégica.

ME: Quanto tempo isso vai durar no Vasco? Vocês funcionarão como uma consultoria perene ou criarão metodologias e ajudarão apenas até a criação de procedimentos que o clube possa tocar sozinho?

SM: Entre cinco e seis meses. A ideia é que a etapa final do processo crie métodos para que o clube possa dar continuidade ao modelo. A fase final é tratar como fazer para ter perenidade e como se manter constantemente atualizado. Não adianta fazermos um esforço assim e não montarmos algo que acompanhe a evolução do mercado. O projeto precisa ser dinâmico.

Sobre o clube, isso depende do grau de maturidade que o processo atingir. O trabalho prevê um repasse de conhecimento de todo o projeto para que eles deem continuidade, mas pode haver um acompanhamento por mais tempo até que isso seja colocado para rodar.

ME: Vocês decidiram procurar um clube de futebol e escolheram o Vasco ou a ideia de criar essa parceria partiu da equipe?

SM: O Vasco possui muitos torcedores apaixonados, alguns com boa relação com o mercado. Essas pessoas estão sempre presentes, sempre prontas para ajudar com algumas iniciativas. Alguns membros desse grupo pensaram em aproveitar o bom momento do clube em termos de retorno de mídia e alertar sobre a necessidade de profissionalização. E o Roberto [Dinamite, presidente do Vasco], que é muito bem assessorado, deu respaldo na hora. Eles fizeram uma concorrência, e a Insight foi a consultoria escolhida.

ME: Qual vai ser o grau de autonomia de vocês? A Insight dará apenas sugestões ou tomará decisões sobre os rumos da gestão do Vasco?

SM: O trabalho é todo do Vasco. A Insight vai colaborar com metodologia e conhecimento, mas o respaldo é todo deles. Nós vamos acompanhar as ações e trabalhar para fortalecer os gestores, mas a diretoria é que vai conduzir.

ME: No material de apresentação da parceria, vocês definem o trabalho no Vasco como a chance de criação de um modelo a ser replicado em outros clubes de futebol no futuro. Explique esse planejamento da Insight.

SM: O Vasco tem um desafio de mudar. Nós percebemos isso, e vemos que o segmento tem muitas possibilidades. Esperamos que esse projeto possa apoiar outros clubes, que a metodologia profissional dê resultados e que isso seja só o início. O mercado precisa de mudanças sérias e complexas nos clubes. Principalmente no futebol, que é o grande braço.

ME: Qual é a diferença entre o esporte e outros segmentos em que vocês já trabalharam?

SM: Na verdade, a diferença mesmo está no objetivo do negócio. O clube é movido pela paixão. O torcedor, o sócio e a sociedade cobram, e então você precisa ter formas de tratar o seu negócio com um modelo de gestão que seja adequado à perspectiva desse público. Esse é um grande diferencial.

Agora, quando você trata de modelo de gestão interna, de processos, de apoio e de educação dos contratos, não há grande diferença para aquele modelo de empresa familiar que eu citei no início. Esse é um tipo de companhia que também possui processos menos dinâmicos, mas consegue utilizar conceitos no mercado para poder ganhar tempo. A diferença maior, portanto, é o negócio central do clube, que é a forma de levar ao esporte cada vez mais pessoas apaixonadas e fazer com que elas sejam geradores de receita. É um ciclo que exige renovação, uma relação de trabalho em que a inovação esteja sempre presente. Só assim para não parar no tempo.

ME: Como é possível equilibrar a necessidade de uma gestão profissional e a relação com a paixão dos torcedores?

SM: Essa é uma questão muito presente na linha metodológica. O clube precisa trabalhar para que a paixão seja atendida, mas é fundamental sobreviver e ter êxito para que essa paixão seja alimentada. Trabalhamos muito o processo de sensibilização agregado à consciência. As pessoas precisam entender que é fundamental dar sustentabilidade ao clube. É como a construção de uma casa: a casa pode ser a mais bonita de todas, chamar atenção, mas pode desmoronar se a estrutura não for bem planejada. Precisamos trabalhar os anseios e necessidades, mas sem abrir mão de uma visão de longo prazo.

ME: Mesmo com todos os problemas administrativos ao longo de anos, o futebol é um segmento viável?

SM: Acho que é um segmento muito forte, sim. Principalmente se o analisarmos a luz dos eventos que nós temos pela frente, mundialmente falando. É um setor que nos possibilita trabalhar com modelos distintos, mas que gera resultados. O futebol, além de tudo isso, é um esporte que move a paixão das massas. É perfeitamente viável, desde que tenha um respaldo, um apoio eficiente, que comece de dentro para fora. Volto à história da casa: é um setor que chama atenção, mas precisa de uma base forte para ser um gerador de receita.

ME: No começo da conversa, você falou sobre a importância de Copa do Mundo e Olimpíadas para esse segmento de consultoria. O mercado já começou a se aquecer ou isso é algo que terá mais espaço somente nos próximos anos?

SM: Nossa visão é que já há um processo de preocupação e de olhos abertos em relação a movimentações e mudanças num sentido maior de preocupação. Isso é fato. Mas só que ainda não é totalmente efetivo. Existe um processo, e nós ainda vamos passar por alguns modelos até que o segmento como um todo chegue à conclusão de que existe um caminho a ser seguido. E por que esse vai ser o melhor caminho? Porque os clubes, como as empresas, precisarão de novos modelos. Qualquer empresa, de qualquer segmento, precisa se adaptar a uma realidade nova, com uma força cada vez maior para a informação, uma agilidade elevada. Para continuarem sendo motivadores daquela paixão de que falamos, os clubes precisarão entender isso. O modelo mental das pessoas mais jovens é completamente diferente. O paradigma mudou, e a melhor forma de acompanhar isso é a eficiência.


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