Eleita a melhor do mundo pela Fifa nas últimas três temporadas, a atacante Marta deu o pontapé inicial, na última quinta-feira, no que pode ser uma nova era para o futebol feminino no país. Numa estratégia similar à do Real Madrid no masculino, o Santos anunciou a melhor do mundo e, com isso, começou a chamar a atenção da mídia e dos patrocinadores para seu time feminino.

Atraída pela presença da atleta, por exemplo, a Copagaz investiu R$ 500 mil no patrocínio principal às ?Sereias da Vila?, valor histórico para a modalidade no país. BMG, Lupo e o Grupo Bandeirantes também pegaram carona no projeto santista, expondo suas marcas e, no último caso, acertando a transmissão em TV aberta e fechada da primeira edição feminina da Copa Libertadores da América.

O comando dessa empreitada santista está nas mãos de Modesto Roma Júnior, cuja linhagem impõe respeito. O supervisor administrativo do clube é filho do ex-presidente homônimo, que ganhou inclusive uma efeméride para celebrar sua passagem pelo principal cargo do alvinegro praiano entre 1975 e 1978.

Modesto não é um homem de negócios. O mentor do projeto do futebol feminino santista ? que traz um horizonte de contratos e receitas ? é um dirigente à moda antiga. Modesto no nome, longe disso nas palavras.

Nesta entrevista exclusiva à Máquina do Esporte, o supervisor administrativo do Santos diz que o time feminino sempre foi forte e minimiza a presença de sua principal estrela para conseguir visibilidade.

?Eu concordo que elas [Marta e Cristiane] alavancaram a visibilidade que nós já tínhamos. Nosso time sempre foi forte. A presença dela é forte, forte no Santos, essa camisa 10 é muito forte, independentemente de quem a veste. Toda a força da Marta é apenas o carro-chefe de um projeto de divulgação do futebol feminino, mas não é o todo?, conta Roma Júnior.

Leia a seguir a íntegra da entrevista:

Máquina do Esporte: Como o Santos irá ativar a presença da Marta no time feminino durante a disputa da Copa Libertadores?

Modesto Roma Júnior: Vamos lançar diversos produtos ligados à equipe para reforçar nossa presença no futebol feminino. Mas não vamos fazê-lo apenas com a Marta, vamos usar todo o time feminino.

ME: E quais serão esses produtos?

MRJ: Camisetas, bolsas e toda uma linha de licenciados. Eu não sei todos os produtos que irão para o mercado, mas serão muitos.

ME: O contrato com as duas principais estrelas do time, Marta e Cristiane, é de apenas três meses. Como aproveitar, em termos de mercado, a presença dessas jogadoras em um período tão curto?

MRJ: Indo com força para o mercado publicitário. É isso que estamos fazendo. Associamos as marcas ao Santos com nossas cotas de camisa, manga, peito e short. É dessa forma que vamos capitalizar o bom momento de todo o time, não só a passagem de Marta e Cristiane.

ME: O Santos pretende repetir a estratégia usada pelo Corinthians em função da presença do Ronaldo e ?lotear? sua camisa?

MRJ: Não chega a ser loteamento. Veja bem, nós temos esses espaços e vendemos aos nossos patrocinadores. A gente só vendeu peito, calção e manga.

ME: E quais são as empresas já associadas ao time feminino do Santos?

MRJ: A Copagaz comprou o peito, o calção é da Lupo e a manga ficou com o BMG. A Umbro será a nossa fabricante esportiva, assim como acontece no masculino.

ME: Qual é a previsão de receita do Santos com a presença da Marta na equipe?

MRJ: A previsão de receita é em cima do futebol feminino, não da Marta. Ela é apenas um item desse projeto, encabeça as ações. Temos 16 atletas da seleção brasileira em nosso plantel, oito medalhistas olímpicas... O time todo é forte.

ME: Ter duas das três melhores jogadoras do mundo não ?atrapalha? a competitividade no torneio?

MRJ: Todos os times são fortes, são os campeões de cada país. Eu posso afirmar que São Paulo, Cruzeiro e Palmeiras, por exemplo, são favoritos absolutos na Libertadores masculina. É a mesma coisa.

ME: Falando outra vez em mercado, a Marta tem mais potencial para ser trabalhada nesse sentido do que o time masculino?

MRJ: Não, são produtos diferentes, simplesmente.

ME: E quanto vai custar manter esse time?

MRJ: Não falo em valores. Vai que algum time de fora venha ver o que estamos fazendo aqui para copiar.

ME: E de onde virá o recurso?

MRJ: O futebol feminino nunca precisou de esmola. O que nós precisamos é de visibilidade. É a partir daí que vamos desenvolver. É isso que faz a roda girar. Vai ter patrocínio, venda de produtos, e por aí vai.

ME: O senhor, então, concorda que as presenças de Marta e Cristiane são fundamentais para atrair essa visibilidade e fazer esse caminho?

MRJ: Eu concordo que elas [Marta e Cristiane] alavancaram a visibilidade que nós já tínhamos. Nosso time sempre foi forte. A presença dela é forte, forte no Santos, essa camisa 10 é muito forte, independentemente de quem a veste. Toda a força da Marta é apenas o carro-chefe de um projeto de divulgação do futebol feminino, mas não é o todo.

ME: O Santos pretende negociar a permanência dessas atletas para o ano que vem?

MRJ: Conversar, a gente sempre conversa, mas elas são profissionais e têm contratos a cumprir lá fora. Não brincamos com isso. Temos a responsabilidade de manter a roda girando.

ME: O que vai ser feito depois desse período de três meses? O Santos manterá o time?

MRJ: Só a Marta e a Cristiane têm contratos curtos, as outras têm acordos anuais. O time é forte independentemente das duas.

ME: A transmissão na TV aberta é o principal aliado nesse sentido?

MRJ:Se continuar havendo visibilidade, os times se mantêm fortes, podem tentar contratos melhores com as atletas, conseguem patrocínios. À televisão só interessa o espetáculo. Enquanto era algo desinteressante, a TV não queria mostrar. Agora que temos atletas desse nível por aqui, eles se interessaram. É assim que a coisa caminha. É a roda girando.


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