Um evento realizado na última quarta-feira, em um hotel de São Paulo, marcou o lançamento oficial do G4, grupo que reúne representantes de Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo. A união surgiu como forma de melhorar o diálogo entre os rivais, que andava desgastado, mas não demorou para que os quatro percebessem o potencial mercadológico do grupo.

A primeira demonstração disso apareceu logo na quarta-feira. No lançamento do G4, os clubes anunciaram também um acordo com a Femsa, fábrica de bebidas que topou pagar cerca de R$ 10 milhões para ser a primeira parceira oficial da entidade. Nos próximos cinco anos, a meta do grupo é amealhar até R$ 260 milhões em contratos desse tipo.

A ideia inicial era melhorar o relacionamento entre as diretorias e a primeira meta foi a geração de receita a partir do uso das quatro marcas. Entretanto, o G4 vislumbra uma participação bem mais contundente no futebol nacional durante os próximos anos. Mais do que atrair empresas, a ideia do grupo é usar o poder das quatro marcas de São Paulo para conseguir alterar questões importantes e facilitar a administração das equipes.

?Uma das coisas com a qual nós brincamos nos primeiros encontros é que a Globo só transmitia jogos de times do Rio de Janeiro para o Nordeste do país. Fizemos uma representação em julho ou agosto, e hoje já existe um rodízio. Voltaremos ao tema para que isso seja mais forte ainda. Os direitos de TV do Paulista e do Brasileiro já estão negociados para 2010, mas entraremos em bloco para os anos seguintes. Teremos mais força assim?, disse José Carlos Peres, coordenador-geral do G4, em entrevista exclusiva à Máquina do Esporte.

Peres também fez parte do grupo que tentou unir os quatro grandes de São Paulo em 2005. Na época, o projeto naufragou por falta de envolvimento das diretorias, situação que o executivo assegura ser bem diferente da atual. O G4 é constituído como empresa e negocia contratos coletivos, com direitos iguais para todos os clubes.

Leia a seguir a íntegra da entrevista:

Máquina do Esporte: Como é a estrutura administrativa do G4 e qual é a sua função?

José Carlos Peres: O G4 é formado pelos quatro presidentes de Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo, que são Andres Sanchez, Luiz Gonzaga Belluzzo, agora o Luis Álvaro e o Juvenal Juvêncio. Cada clube também tem um gestor no grupo: o [Luis Paulo] Rosemberg pelo Corinthians, o Adalberto [Baptista] pelo São Paulo, o [Rogério] Dezembro pelo Palmeiras e eu pelo Santos. Houve uma eleição entre esse grupo, e eu fui escolhido para ser o coordenador-geral.

ME: O G4 surgiu neste ano, quando o diálogo entre os quatro clubes não era bom ? Corinthians e São Paulo brigavam na imprensa por carga de ingressos e Marcelo Teixeira, então presidente do Santos, havia trocado insultos com torcedores do Corinthians no Pacaembu, por exemplo. Essas rusgas e a crise no relacionamento têm relação com a criação do grupo?

JCP: Eu frequento a sede da Federação Paulista de Futebol, e estava meio aborrecido por ver as quatro potências do Estado se digladiando. Esses episódios foram significativos, mas não foram os únicos. Eu senti que a situação estava ruim, e pensando nisso fiz uma proposta de aproximação. Conversei com o Andres Sanchez e ele topou um almoço, desde que não fosse no Morumbi.

Fizemos uma peixada em Santos, que nós chamamos de peixada da paz. Foi numa sexta-feira, um dia muito chuvoso. Foram todos os presidentes, apesar do atraso, e o resultado superou nossas expectativas. Foi muito legal. Sentimos um constrangimento, mas o ambiente começava a melhorar. Começamos a entender que estava faltando conversa entre os clubes. Pensando nisso, mostramos a eles o texto que foi lido no evento de lançamento do G4 *, que fala sobre o melhor time do mundo. O melhor time do mundo é vermelho, preto, branco e verde. Ele tem 90% da torcida de São Paulo e 30% do Brasil, seis títulos mundiais, seis Libertadores e 84 Paulistas. Esse time é o G4, e isso mostra o quanto essas marcas valem. Esse texto foi lido para os presidentes, que ficaram arrepiados: ?Poxa, nós somos tudo isso??. Eles perceberam que o potencial ali era enorme, quase invencível.

*N. R.: O grupo foi lançado oficialmente na última quarta-feira, em São Paulo, em evento que apresentou a fabricante de bebidas Femsa como a primeira parceira da entidade. A companhia usará as marcas Coca-cola e Kaiser para ações com os clubes de São Paulo.

ME: E quanto demorou até a reunião para acabar com constrangimento e mostrar a força das marcas virar fórum para debater negócios?

JCP: Marcamos outro encontro para o Morumbi. Até o Andres, que tinha dito que não pisaria lá, foi. Todo mundo foi muito bem tratado, e lá nós começamos a desenhar como seria o G4 aliança paulista. Depois que tiraram aquele constrangimento, todo mundo percebeu que a união poderia gerar negócio, dinheiro e experiência. Pensamos no modelo com presidentes e gestores, para não ter tumulto nas reuniões, e quatro coordenadores. O Adalberto cuida de patrocínios e licenciamentos, o Rosemberg trata de projetos especiais e o Dezembro é responsável por jurídico e comunicação. Marcamos outro encontro para o Corinthians, e o Adalberto nos apresentou a possibilidade de uma conversa com a Ambev. Ligamos, marcamos uma reunião e começamos a trabalhar.

Depois que fechamos tudo com a Ambev, percebemos que seria difícil equilibrar a demanda política porque Corinthians e São Paulo tinham contratos com a Femsa. Aí a Femsa telefonou, eu fui lá e nós fizemos várias reuniões. Estava todo mundo muito nervoso no começo, mas depois a coisa rolou de um jeito legal e acabamos constituindo algo bem elegante.

ME: Andres Sanchez, presidente do Corinthians, disse no evento de lançamento do G4 que a primeira meta de vocês era gerar receita. A partir do acordo com a Femsa, vocês acreditam que desenvolveram um modelo de negócio a ser replicado em outras parcerias?

JCP: A questão da negociação com a Femsa fugiu um pouco do nosso escopo. Existiam contratos em vigência com Corinthians e São Paulo, e por isso nós abrimos um pouco o patrocínio em relação ao que pretendíamos no início. Já com a Ambev, vínhamos negociando um pacote bem diferente. Não entrava a questão de exclusividade de venda de bebidas no estádio, por exemplo. Daqui para frente, devemos trabalhar algo nessa linha. Quem comprar vai ter o direito de ser a marca oficial do G4, como a Coca-cola é o refrigerante oficial e a Kaiser é a cerveja oficial. Além disso, ofereceremos a possibilidade de a empresa trabalhar camarotes nos quatro estádios e fazer ações no campo antes do início das partidas. Quando eu falo em ceder as marcas, estou falando de um patrocinador oficial. Ele pode trabalhar relacionamento, criar produtos e explorar uma quantidade de ingressos para cada jogo. Isso quando falamos de clássico, é claro.

ME: Falando em clássicos, o confronto entre Corinthians e Palmeiras no Estadual deste ano teve comunicação própria, selo especial e uma série de ações ligadas ao jogo. Essa é a linha a ser seguida pelo G4 nos próximos duelos?

JCP: Sem dúvida. Vamos fazer competições entre as torcidas, privilegiar a paz nos jogos. Vamos trabalhar os nomes dos clássicos, como Corinthians x Palmeiras fez com o dérbi. Teremos ainda as taças dos clássicos, que nós ainda não definimos se vão ser uma para cada jogo ou de posse transitória. Outra ideia é fazer um campeonato entre os quatro para ver quem fica invicto por mais jogos, com direito a uma taça. Queremos fazer com que os clássicos sejam realmente diferentes, individualizados. Até os hotéis, aeroportos e o porto de Santos entrarão nisso.

ME: Como?

JCP: Imagine os aeroportos agora em janeiro: há aviões subindo e descendo a todo instante. O porto de Santos teve 600 mil passageiros neste ano. É um número interessante, que nós não podemos deixar passar. Vamos colocar moças recebendo turistas, entregando panfletos e explicando que haverá os jogos. Também teremos empresas de turismo que oferecerão vans até as partida s e um roteiro à noite, com um pacote completo para os turistas. E teremos quiosque nos aeroportos com a marca do G4, ora distribuindo brindes, ora fazendo promoções. Isso é uma forma de ativar os clássicos.

ME: A atuação do G4 nas questões de captação de patrocínio e ações de marketing está clara, mas o que o grupo fará em outras esferas? Existe uma pretensão de trabalho político, como é feito pelo Clube dos 13?

JCP: Uma das coisas com a qual nós brincamos nos primeiros encontros é que a Globo só transmitia jogos de times do Rio de Janeiro para o Nordeste do país. Fizemos uma representação em julho ou agosto, e hoje já existe um rodízio. Voltaremos ao tema para que isso seja mais forte ainda. Os direitos de TV do Paulista e do Brasileiro já estão negociados para 2010, mas entraremos em bloco para os anos seguintes. Teremos mais força assim.

ME: Isso não coloca o G4 em conflito com as funções do Clube dos 13?

JCP: O Clube dos 13 é algo consolidado há muito tempo, já existe há várias décadas. Nós não nascemos para ocupar o lugar deles ou disputar posição; nosso sentido é mais mercadológico. Eles têm uma utilidade muito grande, mas os clubes precisam brigar por seus direitos de imagem, TV, placas e uma série de outras propriedades que nós começamos a observar. A diferença é que o Clube dos 13 é uma entidade mais política e nós somos mercadológicos, embora tenhamos um pouco de atuação política.

Vamos brigar por novas leis que beneficiem os quatro clubes. Faremos um lobby em Brasília para aprovar a liberação de venda de cerveja nos estádios, por exemplo. Também vamos brigar por uma restrição à idade de saída do jogador do país. Outra coisa que nós percebemos é que a questão de internacionalização das marcas depende de amistosos. E para isso, precisamos mexer no calendário, com um Paulista mais curto e mais datas de preparação.

ME: Algumas das questões citadas na última resposta têm sido polêmicas recorrentes nos últimos anos. O G4 terá autonomia, por exemplo, para pedir mudanças no calendário e nos contratos de direitos de mídia apesar de os clubes terem dívidas com a federação e a emissora que transmite as competições?

JCP: Nós não queremos mexer na estrutura do Campeonato Paulista, mas montar um modelo em que os nossos times entrem mais tarde, em uma segunda fase. Não queremos brigar ou tirar poder das federações e confederações. Queremos apenas ver os nossos direitos e o que é melhor para nós. Vamos preservar o que é nosso.

ME: Os membros do G4 fazem parte de correntes diferentes no Clube dos 13. A partir da criação do grupo, a ideia de vocês é o voto conjunto?

JCP: Estamos alinhando as perspectivas políticas. A ideia é buscar uma unidade para cada tema, e a partir disso nós votaremos em bloco. Bloco significa três votos para designar um vencedor. Tudo vai ser escolhido assim. Queremos ter um bom relacionamento com todas as instituições, mas precisamos estar alinhados para defender o que é melhor para o grupo.

ME: Com a força política e mercadológica que o G4 possui, algum outro clube demonstrou interesse de integrar o grupo? Vocês têm um projeto de expansão?

JCP: O Juvenal disse há alguns dias que não existe um quinto ou sexto clube. Nós tivemos uma consulta do Flamengo, que queria entrar, mas isso foi antes da eleição. Agora entrou a Patrícia Amorim, e com ela nós não conversamos. Naquela época, não falamos não para o Flamengo, mas pedimos tempo para consolidar o G4. Depois, podemos aumentar um ou dois clubes e mais nada, até para evitar um conflito com o Clube dos 13.

ME: Além de uma marca para brigar por novos contratos e de um bloco para lutar pelos direitos dos clubes, o G4 pode funcionar como um espaço para trocas de experiências em busca de uma melhoria na gestão? Existe essa preocupação?

JCP: A partir de janeiro, vamos criar fóruns segmentados. Teremos um encontro para falar sobre a área jurídica, outro para falar sobre marketing, um de gestão e um financeiro. Vamos estabelecer o formato em janeiro, mas acho que as reuniões deveriam começar quinzenais e passar a um modelo mensal posteriormente. A ideia é trocar experiências, reunir os profissionais dos quatro clubes para dizer o que acontece em cada um deles e até eleger temas para brigarmos fora do grupo. No fórum de marketing, vamos trabalhar os limites dos patrocínios conjuntos, as possibilidades individuais e as questões de licenciamento. Não somos concorrentes em licenciamento, já que alguém que compra um produto de um clube dificilmente compra do outro. Portanto, podemos ter um investimento conjunto nessa área.

ME: É possível manter a rivalidade a despeito de tantas ações para aumentar os laços entre os clubes?

JCP: A rivalidade é essencial, a alma do futebol. Mas a rivalidade com violência afasta o torcedor do estádio e dos produtos. Ele deixa de consumir uma camisa oficial porque tem medo de usar e ser agredido, por exemplo. Precisamos trabalhar direitinho, de forma conjunta e sem violência, mas sem perder a essência da rivalidade.

Um exemplo disso é a questão das lojas. Hoje o Corinthians tem lojas, o São Paulo tem lojas, o Palmeiras tem as dele e o Santos está começando a aumentar a rede. Só que quando um clube coloca uma loja em um shopping, tem dificuldade porque vende produtos com uma marca. De 50 pessoas que passam na porta, pode ser que apenas um torça para aquele time. O que nós queremos é criar a loja do G4, que seria mais viável. Seria algo com o mesmo conceito, mas com uma prateleira ou uma seção para cada equipe.

A ideia é trabalhar também a venda de ingressos em um sistema único. Queremos que o torcedor entre na loja do G4, compre um cartão com chip, entre na internet e compre seu ingresso apenas com cartão de débito ou crédito.

ME: Os quatro clubes de São Paulo já ensaiaram uma união em 2005, mas na época a proposta não foi adiante porque englobava apenas o marketing e não tinha respaldo do administrativo. O que é diferente agora?

JCP: O G4 é o grande avanço da década. Desta vez tem força e conta com a participação dos quatro presidentes, que só entram para decidir. Embaixo há gestores trabalhando o desenvolvimento, e cada um coloca a equipe de marketing do clube para ajudar. Eu participava daquela união em 2004 ou 2005, mas não tinha envolvimento dos presidentes. Era só licenciamento, e não marketing como um todo. Os contratos eram discutidos separadamente, ao contrário do que acontece hoje. Mudamos o conceito e criamos uma empresa com CNPJ, regulamentada, que pode assinar um contrato de licenciamento igual para as quatro instituições.

Dá para ver a satisfação dos presidentes, e o entusiasmo deles contamina. Mas também tenho de falar da qualidade dos gestores: só tem fera nesse time. O Rosemberg é o meu Pelé, o Adalberto é o meu Coutinho e o Dezembro é o meu Zito. Ou, para ficar melhor, o Dezembro é o meu Ademir e o Adalberto é o meu Pedro Rocha. Mas o Rosemberg é o meu Pelé e isso eu não mudo.


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