Dois dos eventos mais interessantes que eu pude vivenciar "in loco" foram grandes maratonas. Em Berlim e, especialmente, em Boston, as corridas têm uma capacidade única de unir os mais diferentes públicos e formar nas ruas um clima de festa totalmente fora da curva. As corridas dão cor às cidades, e não há nada que possa substituir a multidão.

Dessa maneira, em tempos de coronavírus, as notícias sobre o cancelamento das Maratonas de Boston e, agora, Berlim e Nova York, só podem ser vistas com naturalidade. Afinal, a tentativa de adaptar esses eventos ao "novo normal", ou "new normal" para quem gosta de desfilar expressões da moda, é um simples tiro na essência do que eles representam. Reduzir as competições ao tempo obtido por atletas de elite é descontruir uma série de significados.

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O problema, para a indústria do esporte, é que as maratonas não são exceções. Evento esportivo é feito de gente. De marmanjo gritando nas arquibancadas, de criança gargalhando com os pais, de adultos que perdem os filtros sociais e se acabam em lágrimas.

Para as modalidades em que isso é possível, resta a busca pela sustentabilidade em tempos de crise, com apoio na televisão, nos patrocinadores e na saudade de seu público fiel. Para ficar aquecido no coração da gente, vale até trapacear. Ou não é isso o que os clubes europeus fazem quando colocam som de torcida e público de cartolina? E estão certos. Caso esqueçam do que é feito o esporte, ele morre.

Portanto, para clubes, eventos, patrocinadores e, principalmente, torcedores, não existe "new normal" no esporte. Tudo o que sobra às entidades esportivas neste ano é "cumprir tabela" conforme o que as circunstâncias permitem para que, o mais rápido possível, o "velho normal" possa retornar. O lado bom é que, quando voltar, estará ainda mais forte. A tendência é que o público valorize ainda mais essa experiência que todos nós estamos sendo privados.

Especificamente para o Brasil, vale a esperança de que gestores do esporte passem a valorizar mais a presença do torcedor no estádio. Historicamente maltratados por clubes e organizadores, os fãs do esporte nacional mantêm o receio de ir a ginásios e arenas pelo país. Quem sabe após a pandemia os locais passem a ser mais amigáveis, e o "new normal" ganhe um novo significado.


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