A ideia por trás da Medida Provisória (MP) 984 é tentar dar ao futebol maior poder de negociação sobre seus direitos de transmissão. Feliz no conceito, ela não consegue, porém, empoderar o futebol, porque pressupõe que exista uma condição primária de união dos clubes que inexiste.

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Caso vire lei do jeito que está, a MP 984 vai representar a falência completa de clubes médios e pequenos no país. A lógica de livre mercado só beneficia, nesse caso, quem já é grande o suficiente para negociar bem os seus direitos.

A discussão que o Brasil faz agora é a mesma que a Europa fez há 20 anos. À ocasião, o problema era a BSkyB assumindo os direitos de transmissão da Premier League com exclusividade. O que os britânicos questionavam era que os clubes haviam formado um cartel que tolhia o torcedor de fazer sua escolha.

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Após intenso estudo, o Parlamento britânico entendeu que, dada a característica do mercado de direitos de mídia, era mais saudável para o futebol a venda coletiva de direitos. Só isso daria aos clubes força financeira suficiente para conseguir uma melhor proposta na negociação com a mídia. Além disso, ao dividir depois o bolo total faturado, o abismo financeiro entre clubes era reduzido por incluir outros itens na negociação, como performance esportiva, quantidade de jogos transmitidos, audiência das partidas, etc.

Acabava-se, assim, a lei do mais forte. É esse o risco atual do futebol brasileiro com a MP. Os clubes, que já são desunidos e fracos financeiramente, vão perder qualquer força para discutir a transmissão com a mídia. Iludidos com a ideia de que sua massa de torcedores é ávida pelo consumo, eles não olham que a medida reduz drasticamente o poder de negociação de cada clube.

Quanto vale para uma emissora exibir 19 partidas de um time só em vez de 380 de um campeonato? Qual clube conseguirá fazer, sozinho, a mesma receita que Globo e Turner pagam atualmente para o Campeonato Brasileiro?

Se quiser realmente acabar com o monopólio na transmissão do futebol, o governo precisa exigir dos clubes união para negociar e a obrigação de não colocar sob domínio de uma única empresa esses direitos. Além, claro, de cobrar responsabilidade financeira dos clubes para serem empresas saudáveis. A canetada do governo é essencial. Mas, até agora, foi usada do jeito errado.


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