É louvável a preocupação dos principais clubes brasileiros em contornar o período de paralisação, sem fazer, na maioria dos casos, uso político da situação. As iniciativas, no entanto, são inócuas no momento. Hoje, se sabe quase nada do que acontecerá daqui a poucas semanas. E, nesse contexto, é praticamente impossível traçar um planejamento sustentável para o restante do ano.

Há várias peças que faltam no tabuleiro. A principal delas, claro, é o tempo real de quarentena. Mesmo entre especialistas em saúde pública, a resposta não é arriscada. Em Wuhan, cidade chinesa onde começou a contaminação por Covid-19, o isolamento social deve ser encerrado em abril, quase quatro meses após o início da crise.

Para piorar a expectativa de alguma previsão mais concreta, o governo federal brasileiro resolveu, mais uma vez, adotar o caos. Na contramão da maioria dos países do mundo e da recomendação dos especialistas, o que inclui o Ministério da Saúde, a presidência quer o fim da quarentena. Ao politizar o assunto em detrimento da saúde pública, foram criadas ainda mais incertezas sobre o tamanho do impacto do coronavírus no mercado brasileiro.

Sem a definição principal, fica difícil estabelecer o impacto de outras questões. Como ressaltou a BDO Brazil, em caso de retorno do Brasileirão na íntegra, o prejuízo ficará limitado à bilheteria de algumas partidas e à verba restante dos Estaduais. Para a maior parte dos grandes clubes brasileiros, a quantia seria pouco expressiva e, portanto, não seria necessária uma grande engenharia financeira para fechar as contas no fim da atual temporada.

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A possibilidade, no entanto, está longe de ser bem definida. Caso os Estaduais sejam cancelados e o Brasileirão seja reduzido, a entrega dos times será bem menor, e as renegociações serão inevitáveis. Bilheterias serão menores, e a televisão e os patrocinadores terão direito a reduções proporcionais às reduções de partidas. Em clubes como Corinthians e São Paulo, por exemplo, que encerraram a última temporada com déficits superiores a R$ 140 milhões, um encurtamento das receitas tende a ser completamente trágico.

Portanto, cabe aos clubes, no momento, pensar em planejamentos para situações diversas. Uma tomada de decisão mais enfática, como a redução de salários, pode apenas gerar um entrave desnecessário. Esse é mais um momento em que a união das equipes seria bem-vinda, até para exigir um posicionamento mais claro da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e das emissoras de televisão.

O cenário de incertezas pede calma aos gestores. Todos eles.


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