O mercado do futebol tem uma série de particularidade em relação a outros segmentos. Talvez a mais única seja que os grandes times, organizações que faturam mais de meio bilhão todo ano, têm como objetivo final não somente a relação financeira, mas gerar resultados que são difíceis de serem mensurados; a paixão do torcedor nem sempre é alimentada de maneira racional.

Quando a paixão está envolvida, a tão prezada gestão profissional pode encontrar conflitos, e a decisão fria pode ser gerador de crise. O grande desafio do gestor esportivo é medir quando ele deve ter distanciamento ou quando vale algum sacrifício financeiro em nome de uma possibilidade de título ou de um grande ídolo.

Nesta semana, os gestores do Corinthians estiveram nessa encruzilhada. O clube dispensou o volante Ralf, um dos 20 jogadores com mais partidas na história da equipe e um dos mais vencedores. A decisão foi racional: é um jogador mais velho, com salário alto e que não deverá ser utilizado pelo novo técnico Tiago Nunes.

Certamente, a relação profissional era esperada pelo próprio jogador. Em 2016, o atleta se apressou para ir ao futebol chinês. Ignorou a renovação com o Corinthians, pagou a multa do antigo contrato, dias antes do novo acordo, e se mandou para o outro lado do mundo. Sem despedidas ou textão nas redes sociais.

Obviamente, o comportamento foi compreendido pelo clube, a ponto de a equipe ter recontratado Ralf dois anos depois. A relação foi apenas profissional na época, como foi agora. Nada de errado, certo? Ainda assim, após o anúncio da dispensa do atleta nesta semana, choveram críticas de torcedores e de uma parte considerável da imprensa. O argumento é que a equipe teria sido desrespeitosa com o jogador.

No fim, todo aquele profissionalismo que se prega no futebol acabou gerando um ruído de imagem logo no primeiro dia da temporada. Diretoria e o novo técnico ficaram desnecessariamente pressionados logo na apresentação do elenco.

Fica, então, uma lição. Além de toda a ponderação do momento em que se deve ser frio e do momento em que se deve agir com o coração, como o torcedor espera, também há aquela situação em que vale o teatro nos bastidores. Nas conversas extracampo, pode ser tudo sobre dinheiro. Mas convém, na frente das câmeras, mostrar o contrário. Não é cinismo nem desonestidade, é apenas tratar bem a paixão do torcedor, o principal ativo do principal público consumidor do futebol.


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